O dia a dia e suas tragédias…

Texto de Rafael Souza

Recentemente, próximo a região central de Minas Gerais, um trágico episódio de destruição e caos decorrente do descaso público, má gestão empresarial e ganância excessiva sem preocupação ambiental/social pode ser observada, e infelizmente vivida por alguns. A tragédia que me refiro foi o rompimento da barragem da empresa Vale, que tinha por objetivo represar a água oriunda dos processos de prospecção mineral ali próximo.

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Graças a tal tragédia conseguimos ver, em questão de dias, o soterramento de um dos rios mais importantes de Minas Gerais. Resultado disso houve uma grande perda biológica tanto de fauna e flora ao longo do curso do rio, bem como a liberação de toneladas de lama com metais pesados na costa de nosso país. No entanto, um dos mais preocupantes fatores oriundos dessa tragédia foi a quase completa destruição do leito do rio. Tratada_fundao1 maxresdefaultbarragem_mariana-mg A questão é, se mais nenhuma intervenção humana for feita e o ambiente em questão não sofrer grandes alterações geológicas (alterando assim seu nível de base e espaço de acomodação) essa tragédia poderá ser imortalizada em uma camada de rocha daqui a alguns milhares de anos.

Isso nos arremete a uma das mais interessantes discussões no âmbito cientifico que são as Teorias que buscam explicar os processos evolutivos tanto da geologia da Terra como de suas formas de vida. Basicamente existem duas propostas mais famosas e que por muito tempo foram vistas como antagônicas: o Catastrofismo proposto por Cuvier e o Uniformitarismo proposto por Hutton.

O Catastrofismo de Cuvier, como o próprio nome sugere, propõe que o relevo da Terra, entenda por conformação geológica, deveria ser explicada por eventos catastróficos de grande porte. Segundo essa visão, apenas grandes eventos seriam “fortes” o suficiente para deixar depositar grandes camadas e então se transformarem em rocha ao longo da diagênese. Essa mesma teoria também foi aplicada à biologia para explicar diversos processos evolutivos observados.

Dentre as evidências a favor dessa linha de pensamento seriam as grandes catástrofes naturais que alteraram de maneira significativa o curso evolutivo da vida, e devido a sua magnitude seriam mais facilmente preservadas nas camadas da Terra. Podemos incluir também catástrofes que geraram grandes eventos de extinção em massa, como por exemplo, a grande extinção do K/Pg que eliminou todas as espécies de dinossauros não-avianos e, segundo propostas, possibilitou a grande diversificação das espécies de mamífero no Paleoceno.

O Uniformitarismo de Hutton propõem que o registro geológico observado atualmente é conseqüência de uma série continua, lenta e gradual de eventos cotidianos. Sendo assim, a deposição de sedimentos que observamos em rios e lagos ao longo de séculos nos resultaria em rochas equivalentes ao que observamos em alguns afloramentos. Já para a biologia um dos grandes defensores dessa teoria foi o próprio Darwin que por meio da seleção natural propunha que, por exemplos, oo longo da tokogenia das espécies os indivíduos iam lentamente se modificando por meio da descendência com modificação à medida que se adaptavam as mudanças ambientais. Além disso, uma das grandes contribuições de tal teoria foi que os eventos que ocorreram no passado estão sujeitos as mesmas forças naturais que observamos no presente e isso é valido tanto para a geologia quanto para a biologia.

Hoje temos uma noção razoável de que ambas as teorias tem sua influência no decorrer evolutivo da Terra e que a predileção por uma ou outra sem considerar todas as evidências disponíveis pode tendênciar a interpretação por parte dos pesquisadores e fazer com que hipóteses menos favoráveis sejam eleitas. Por exemplo, atualmente temos uma melhor compreensão que tanto a extinção dos dinossauros não-avianos quanto a radiação dos mamíferos foram eventos que fortemente apresentaram contribuições explanatórias das duas Teorias discutidas a cima. Sendo que os dinossauros não-avianos aparentavem apresentar um declínio significativo em seu número de espécies à medida que se aproximava do final do Cretáceo enquanto, em contra partida, os mamíferos já apresentavam um crescimento em seu número de espécies. Sendo assim a catástrofe de extinção em massa do K/Pg pode ter sido apenas um catalisador para todas essas mudanças. Mas uma coisa é certa, se a catástrofe não tivesse acontecido o mundo certamente seria diferente do que observamos atualmente.

Agora retomando nossa catástrofe, resta aguardar os próximos anos para podermos vislumbrar o verdadeiro impacto que causamos a nossa fauna e flora e torcer para que tal cicatriz seja não só eternalizada na história de nosso planeta como na nossa própria história e que essa tragédia nos faça refletir sobre nossa prepotência e nos ajude a nos tornarmos seres mais respeitosos uns com os outros e principalmente com as outras formas de vida.

O autor:

Rafael Gomes de Souza

206762_521403024559726_620681216_nGraduado em licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia e mestre em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Desenvolve pesquisas na área de sistemática e paleontologia, principalmente com crocodilianos fósseis e aspectos filosóficos da sistemática.

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Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.