O que há de errado com "Jurassic World"?

O trailer do mais novo filme da série “Jurassic Park” já foi lançado há algumas semanas, o que levantou muita polêmica entre fãs, dinomaníacos e paleontólogos no mundo todo. A discussão se acalorou até mesmo entre amigos, e os pontos de discórdia foram diversos. Não só quanto à ausência de penas nos bichos (o que já era esperado), mas também quanto às proporções supostamente exageradas de alguns animais, além de críticas quanto ao “não mais tão misterioso” Diabolous rex (D-rex), um dino-monstro criado pelos cientistas de Jurassic World, estrela do próximo filme.
Não podíamos ficar de fora dessa, então, vamos tentar ver o que há de tão errado – cientificamente falando – com o filme e, se no fim, vale a pena assistí-lo.

“Ter penas ou não ter penas?”


'Microraptor zhaoianus', do Cretáceo da China.
O fóssil têm evidências de penas alongadas
nos braços e pernas do animal.
É FATO que a partir da década de 90, muitos fósseis de dinossauros com penas começaram a ser encontrados desde a exploração dos depósitos de Liaoning, na China. Essa localidade, reconhecida como um lagerstätte pela qualidade de preservação de seus fósseis, ampliou significativamente o nosso conhecimento sobre a aparência em vida dos dinossauros e suas relações com as aves atuais.
raços e pernas do animal.


Desde que essas descobertas começaram a ser realizadas, muito mais atenção foi dada à preparação e interpretação de fósseis pelo mundo. Antigos fósseis começaram a ser reestudados, e materiais com evidências da presença de penas começaram a ser encontrados em outros sítios fossilíferos ao redor do mundo.
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Sinosauropteryx, terópode compsognatídeo do início do Cretáceo da China. O fóssil mostra evidências da presença de uma cobertura de penas sobre o corpo do animal.
Hoje, pelo menos 40 espécies de dinossauros apresentam evidências DIRETAS da presença de penas (veja uma lista aqui), ou estruturas semelhantes à penas, no seu tegumento. Dessas, a maioria pertence ao grupo dos terópodes, dinossauros saurísquios que teriam dado origem às Aves. Todavia, estruturas filamentosas que lembram muito penas simples, também foram encontradas em dinossaurosornitísquios, especificamente ceratopsianos e ornitópodes basais.
O fato de penas e estruturas semelhantes à penas terem sido encontradas nos dois grandes grupos de dinossauros – que se diferenciaram bem cedo na história evolutiva do grupo -, nos leva a crer que essa teria sido uma característica presente no ancestral comum de saurísquios e ornitísquiosTrata-se da explicação mais parcimoniosa para a presença desse caracter nos dois grupos.
É importante observar também, que Pterossauria, grupo irmão de Dinossauria, também apresenta evidências fósseis da presença de estruturas filamentosas (picnofibras) no tegumento. Esse carater pode ser ainda mais basal na história evolutiva dos Avemetatarsalia do que se pensava há uma década.
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Detalhes das estruturas filamentosas encontradas na cauda de Psittacosaurus sp., um ceratopsiano (Ornitischia) basal. O fóssil é proveniente da região de Liaoning, na China.
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Cladograma mostrando os grupos de saurísquios que apresentam evidências fósseis de penas. Amplie para ver detalhes.
Certo. Qual a relação de tudo isso com “Jurassic World”?
A questão é, que quando os primeiros filmes da série Jurassic Park foram lançados, o conhecimento sobre a presença de penas em dinossauros estava apenas engatinhando. Não sabia-se ao certo como elas se distribuíam pelo corpo do animal, detalhes de sua estrutura ou como ocorriam entre os diferentes grupos. Hoje, esse conhecimento avançou bastante, ao ponto de investigarmos até mesmo as cores das penas desses animais (por mais distante da pefeição que esse procedimento ainda esteja).
O que muitos dinomaníacos e paleontólogos argumentaram é “Por que os dinossauros em Jurassic World não teriam penas?”.
Bem, o filme Jurassic Park, lançado em 1993, foi um exponente em sua época, modificando a visão arcaica que a opinião pública tinha sobre os dinossauros, comolagartões lerdos e burros. Muito do conhecimento paleontológico que se tinha de mais avançado na época foi empregado no filme, como o fato de esses animais formarem bandos, botarem ovos, alguns assumirem uma postura mais horizontal em relação ao chão, serem rápidos e se comportarem quase que como aves. Esse padrão “inovador” de apresentação dos dinossauros também é observado no livro que inspirou o filme, o romance de mesmo nome escrito por Michael Crichton em 1990.
sFSC91LO filme faturou U$915 milhões e ganhou 3 prêmios Oscar. O seu sucesso acabou atraindo a atenção de milhões de pessoas para os avanços na ciência paleontológica, servindo indiretamente como um divulgador de ciência. Além disso, outros milhares de jovens se interessaram em ingressar na carrreira acadêmica para estudar Paleontologia e muitos dos avanços na área nos últimos anos se devem ao “efeito Jurassic Park“.
O que muitos estavam esperando era que o novo filme da franquia, a ser lançado mais de 20 anos depois (junho de 2015), também seguisse esse padrão, abraçando as mais novas descobertas científicas da presente década. A decepção é que os roteiristas e produtores optaram por não fazer assim. Logo que o filme começou a ser produzido, o diretor, Colin Trevorrow,  informou “não teremos penas em Jurassic World”.
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Sinornithosaurus millenii, dromeossaurídeo (grupo que inclui o velociraptor e o tiranossauro) da China, encontrado com penas. Clique para ampliar.
Dinomaníacos e paleotólogos esperaram até o momento do lançamento do trailer(há algumas semanas) para ver se o anúncio era mesmo verdade e o resultado foi uma extrema revolta por parte de muitos: nada de penas


Seria esse um desfavor à divulgação de ciência?!”, muitos argumentaram.
Com base nos estudos atuais, sabemos que pelo menos alguns dinos terópodes apresentados no filme deveriam mostrar uma cobertura de penas, como é o caso do Velociraptor (clique aqui para saber mais), ou até mesmo do Tyrannosaurus rex, já que ancestrais desse bicho foram encontrados com penas (leia sobre Yutyrannus, um tiranossauróide com mais de 8 metros de comprimento e penas encontrado na China).
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Cena de nudez.
“Deveriam esses animais apresentar penas, se são monstros recriados geneticamente, não dinossauros, por assim dizer?”, responderam os fãs. “Isso é para ser entretenimento, não divulgação científica!”, outros ainda argumentaram. Muitos debateram com razão, mas outros visivelmente se ofenderam com a ameaça à visão que carregavam nos seus sonhos de infância: dinossauros estritamente reptilianos, com escamas cobrindo todo corpo e pupilas verticais.
This is science, Bitch!
This is science, Bitch!

Tamanho é documento?

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Mosasauridae apresentado no trailer de Jurassic World
Outro ponto levantado foi a questão do tamanho exagerado do réptil aquático apresentado no trailer de Jurassic World. Supostamente um mosassauro. O tamanho realmente não é compatível com o de fósseis desses animais encontrados pelo mundo. Os maiores mosassaurídeos são o Tylosaurus e o próprio Mosasaurus, cujos fósseis encontrados indicam que teriam até 15 m de comprimento. É verdade que não sabemos qual teria sido o tamanho máximo desses animais, mas certamente não passaria de 30 m (tamanho de uma baleia azul) e o animal figurado no trailer parece ser bem maior que isso.
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Tamanho máximo de Mosasaurus inferido por meio de fósseis.
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Escala real de um Velociraptor mongoliensis
Bichos fora de escala: isso não é novidade em Jurassic Park, já que oVelociraptor apresentado desde o primeiro filme também é crescidinho demais (o real não teria sido maior que um peru). Quanto a essa questão, alguns argumentam que tudo não passaria de uma grande confusão: o bicho retratado seria na verdade um Deinonichus, animal muito semelhante ao Velociraptor, porém com cerca de 3,5 m de comprimento e 1,20 m de altura.
Há também algumas outras discussões sobre possíveis inconsistências em relação ao tamanho dos Dilophosaurus do primeiro filme (inferências com base nos fósseis indicam que esses animais teriam cerca de 6 m de comprimento), mas os fãs sustentam que, na verdade, os animais não passariam de filhotes.
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Lagardos varanídeos são parentes próximos dos mosassauros.
Voltando a Jurassic World, pelo que se pode ver no trailer, os produtores até que se esforçaram para reproduzir de forma acurada a aparência do suposto mosassauro, representando a dupla fileira de dentes no palato da criatura. Porém, também teriam pecado em não colocar a língua bifurcada, observada em animais atuais pertencentes ao mesmo grupo do monstrão, como o lagarto varanídeo aí ao lado.
Sabemos que animais gigantes excitam o público e é o que mais atrai as pessoas para gostarem de dinossauros e outros bichos pré-históricos. Fazer o mosassuro gigante poderia ser apenas uma jogada do parque para ganhar mais dinheiro. Todavia, fãs de bichos pré-históricos e paleontólogos não gostaram nada da ideia. Muitos acharam que os bichos reais já são por si só suficientemente impressionantes, sem a necessidade de modificações exageradas. Falando em modificações exageradas…

Um monstro que nunca existiu

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“Diabolous rex”
O D-rex, estrela do próximo filme, foi o mais criticado. Resultado da mistura genética proposital de pelo menos 3 espécies de animais diferentes, os geneticistas de Jurassic World parecem que não estavam satisfeitos com a cara dos dinossauros “reais”. Independentemente do porquê da escolha de se criar um animal desses (vamos descobrir apenas com o lançamento do filme), os dino-fãs e os paleontólogos não entenderam a necessidade de usar um bicho que nunca existiu, sendo que temos tantos dinossauros legais para se escolher por aí.
“Pode ser que a trama seja boa, não se pode julgar até entender a história”, argumentaram fãs. Outros disseram: “Isso não é um documentário, mas sim um filme”.. e de monstros, dá bem para entender.
fffefd76e21c8ce1c48d56928b07128dad1f615837f2ebf86497e8c00bb6ca96A mistura genética de espécies diferentes no parque já ocorria desde o primeiro filme, quando foi explicado que DNA anfíbio era usado para completar a sequência genética dos animais. Isso criou defeitos, como o T. rex com a visão baseada em movimentos, oDilophosaurus venenoso e a possibilidade da troca de sexo nos bichos (“Life finds a way”), características de alguns anfíbios modernos. PORÉM, os cientistas argumentam que com o avanço dos conhecimentos sobre a relação entre dinos e aves, os geneticistas de JW poderiam ter começado a utilizar DNA de ave para completar as sequências. Isso teria corrigido defeitos e justificaria a colocação de dinos emplumados em Jurassic World. Seria uma ótima explicação para se adequar cientificamente, mas para os responsáveis pelo filme não! Nada feito! :(

Muitas outras inconsistências

JurassicParkAmberÉ claro que as inconsistências vão MUITO além disso, como encontrar fragmentos viáveis de DNA de criaturas pré-histórias em fósseis de mosquitos no âmbar. Isso por si só já desbanca todo cerne da história de JP. É bom que se saiba que é certamente impossível que sequências úteis de DNA com mais de 10 milhões de anos tenham sido preservadas em um fóssil. O DNA é uma molécula muito estável, mas não por tanto tempo! Estudos sobre a degradação de DNA comprovam isso.
Jurassic World foi além: trouxe a tona possibilidade de se encontrar DNA de criaturas aquáticas. A primeira coisa que disseram foi: “WTF! Como um mosquito sugou o sangue de um Mosassauro?”. E com toda razão. Seja lá qual seja a explicação que vão dar no filme, isso é impossível ao quadrado.
Os únicos animais pré-históricos que poderíamos recriar com base em seu próprio DNA seriam aqules relativamente recentes (menos de 500 mil anos), como os mamutes. Pesquisas sobre essa possibilidade já vêm sendo realizadas nas últimas décadas e logo se tornará possível ter mamutes caminhando por aí… Se você se interessar pelo assunto procure ler artigos sobre “Desextinção”.

Ainda assim, "Jurassic World" vale a pena!

– “COMO?”
- Sim. É isso mesmo que dissemos.
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Ainda com tantas inconsistências e erros, acreditamos que Jurassic World ainda vale a pena. Ao contrário do que muitos dinomaníacos e cientistas ranzinzas podem dizer por aí. Afinal, é entretenimento!
Quase tudo que esse filme traz parece ser um grande desserviço à ciência, pois essa imagem ERRADAserá abraçada e adorada pelo público. Para uma parte das pessoas que vão assistir, talvez isso até seja verdade (os alienados e os fanáticos). Porém, Jurassic World abriu, desde já, um importante espaço para discussão: Nunca vi falarem e divulgarem tanto a questão de dinossauros com penas, ou ainda sobre o que é ou não um dinossauro. No facebook, nos canais de notícias e na blogsfera. Sem querer, Jurassic World chegou para mudar paradigmas. Não foi a intenção deles, mas mesmo sendo um filme estilo “retrô”, se você leu essa postagem (e ainda mais se a compartilhou), a missão de “divulgar ciência” atrelada ao entretenimento está cumprida.
A vantagem do entretenimento é que ele tem um alcance amplo. Isso pode ser uma faca de dois gumes, mas é aí que ao invés de só reclamar e se negar a assistir, que o cientista tem que divulgar e se comunicar.
Aqui vamos todos assistir. E usar o entretenimento para discutir ciência!
Leia também “A síndrome de Jurassic Park“, uma opinião de Tito Aureliano

Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.