Uma Descoberta Inesperada

Um dos artigos paleontológicos mais importantes do ano no Brasil: uma nova espécie de pterossauro encontrada no Paraná. Não somente inesperada devido ao seu contexto geológico regional, como também surpreendente, com fósseis de quase 50 indivíduos preservados. 


Reconstrução do ‘Caiuajara dobruskii’
por Maurílio Oliveira. 2014.
Já era sabido no meio científico que uma nova espécie de pterossauro havia sido descoberta no sul do país. Entretanto, apenas recentemente o artigo foi publicado na revista PlosONE. Só agora podemos ter uma ideia detalhada dessa descoberta espetacular. Quer saber o porquê que é ela tão importante? Leia à seguir.
O Grupo Caiuá, unidade geológica da chamada “Bacia Bauru”, compreendia um enorme deserto de dunas durante o final do Período Cretáceo. Até recentemente, paleontólogos nunca haviam encontrado nenhum fóssil corporal de um animal que pudesse ser identificado com acuidade nessas rochas, distribuídas principalmente pelo norte do Paraná e o leste do Mato Grosso do Sul. Os cientistas geralmente focavam suas pesquisas nos estratos do conhecido “Grupo Bauru”, localizado um pouco mais ao norte, em São Paulo e Minas Gerais, onde o clima havia sido mais ameno no passado e houve notavelmente uma preferência por parte dos dinossauros e crocodiliformes, com o conhecimento de dezenas de espécies. Mas isso mudou. O pesquisador Paulo C. Manzig e seus colegas nos presentearam não só com fósseis muito bem preservados, encontrados nas rochas do Grupo Caiuá, como também com a descrição de uma nova e surpreendente espécie de pterossauro (!).
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Descrito como Caiuajara dobruskii, o pterossauro do Grupo Caiuá pertencia ao grupo dos Tapejarídeos, os bonitões com cristas de vela. Particularmente, eram os meus favoritos quando eu era criança, e, de lá para cá, diversas novas espécies vêm sido descritas. São relativamente raros no Brasil e possuem apenas duas ocorrências confirmadas fora do país (Espanha e China). Até mesmo aqui, todas as espécies estavam restritas à Bacia do Araripe, no Ceará. É espetacular que tenhamos encontrado uma espécie a mais de 5.000 km de distância, no Paraná.
Outra razão para considerarmos importante esse achado é o Tempo. Tapejarídeos são típicos do início do Período Cretáceo. Porém, Caiuajara foi encontrado na Bacia Bauru, em rochas Cretáceo Superior, ou seja, do final do Cretáceo, dezenas de milhões de anos depois! Isso nos faz entender que esses animais perduraram muito mais do que imaginávamos.

journal.pone.0100005.g010Por fim,  mas não menos importante,não podemos deixar de falar que finalmente obtivemos detalhes ontogenéticos! “Onto… quê?” Significa que foi possível possível obter detalhes da aparência dos Caiuajara em diferentes etapas de sua vida – ou seja, em diferentes idades. Foram recuperados 47 indivíduos, juvenis e adultos (envergaduras entre 0,65 a 2,35 m). Segundo os autores, a diferença básica entre eles era o formato da crista, que variava, transformando-se de pequenas em inclinadas para enormes e em meia-lua.
Essas foram as três razões para que se possa considerar essa uma das descobertas do ano no Brasil. Agora, também, os paleontólogos expandiram seus horizontes de pesquisa para o antes esquecido Grupo Caiuá e novas descobertas poderão surgir! Fique de olho!

Bibliografia:
Manzig PC, Kellner AWA, Weinschütz LC, Fragoso CE, Vega CS, et al. (2014) Discovery of a Rare Pterosaur Bone Bed in a Cretaceous Desert with Insights on Ontogeny and Behavior of Flying Reptiles. PLoS ONE 9(8): e100005. doi:10.1371/journal.pone.0100005

Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.