Os problemas da coleta não controlada e do comércio de fósseis

Desde sempre, fanáticos e colecionadores de fósseis existiram. Isso pode ter impulsionado o surgimento da Paleontologia no século XVIII e até mesmo levado ao seu grande florescimento no século XIX, mas a verdade é que essa história toda funciona como uma faca de dois gumes.
Colecionadores particulares de fósseis implicam necessariamente na existência de coletores e vendedores de fósseis para alimentar o seu hobby. Os coletores e vendedores por sua vez o fazem 1) para ganhar a vida, 2) para tirar um trocado, 3) porque tem a oportunidade fácil (os fósseis afloram em seu quintal ou na sua pedreira de calcário), ou 4) por esporte simplesmente.

A parte boa dessa rede toda existir é que com o trabalho dos coletores,  novos fósseis vem a tona com grande grande rapidez, já que a exploração dos depósitos passa a ser contínua. Novas descobertas são feitas o tempo todo e todo mundo fica feliz, certo? Bem, não é bem assim... Existem várias complicações nisso e dentre elas, vou procurar explicar as três principais:
1) O primeiro problema é que coletores amadores de fósseis muitas vezes acabam retirando indevidamente o material dos afloramentos, sem controle tafonômico ou estratigráfico, e com isso informações relevantes ou até mesmo cruciais sobre o contexto daquele organismo extinto (importantes para estudos paleoambientais e paleoecológicos) estarão perdidas PARA SEMPRE.
Convido à reflexão: De que me adianta ter uma coleção de espécies (ou espécimes) se eu não sei aonde encaixá-las no cenário da história da vida na Terra ou no seu contexto paleoambiental e paleoecológico pretérito?
Nesse cenário, o único valor daqueles objetos será puramente estético e colecionista, nada mais. Como figurinhas ou verbetes frios de dicionário.

Por muitas décadas alguns paleontólogos construíram a paleontologia dessa forma. Coletando toneladas de fósseis sem o devido controle, simplesmente para descrever novas espécies. Veja o exemplo do que ocorreu durante a “Guerra dos Ossos” (Bone Wars), nos E.U.A. O resultado pode parecer fantástico, mas na verdade é bastante desastroso. A lição foi duramente aprendida: outros paleontólogos levaram décadas para consertar a bagunça! E olhe que demorou até que essa visão essencialmente descritiva da paleontologia desabasse em prol de uma nova atitude por parte dos paleontólogos. Hoje, um fóssil sem as informações do seu contexto nada mais vale para a ciência.



Coletores amadores geralmente realizam a retirada de maneira indevida dos fósseis por falta de conhecimento aplicado, descuido ou simplesmente porque eles não estão nem aí mesmo e “o que importa é o dinheiro”. Diferente do que se pode pensar, existem técnicas exaustivamente elaboradas e aperfeiçoadas para a retirada de materiais fósseis, de forma que o máximo de informações sobre o local e a condição de morte do organismo sejam preservadas. Para citar algumas das informações importantes, que geralmente são perdidas por uma coleta indevida:

I) a posição geográfica exata e a orientação do material: esses dados podem ajudar a compreender direções de paleocorrentes (rios pretérios);

II) o tipo de sedimento do entorno e a posição exata do fóssil nas camadas sedimentares: o conhecimento desses dados nos ajuda a interpretar informações detalhadas sobre o paleoambiente em que aqueles restos foram soterrados;

III)  a posição daquele fóssil em relação à outros do mesmo local: isso pode ajudar a entender a relação entre os organismos e a causa de suas mortes;

E assim por diante... Coletar essas informações não é tão fácil quanto parece e exige treino e materiais específicos. Um bom georreferenciamento do sítio fossilífero, um estudo geológico detalhado das camadas e a anotação exata da ocorrência de cada concentração fossilífera e de cada fóssil são fundamentais. Isso não se aprende lendo em nenhum “manual”, por mais que muitos desejassem que fosse assim.
 2) O segundo problema que devo destacar é que a atividade de coletores amadores (com intenção de venda ou não do material) faz com que muitos fósseis relevantes acabem sendo perdidos  (aqui, por diversas razões, como vamos destacar).
 2.a. A primeira e mais ingênua razão é que "fóssil feio não vale nada" e os coletores/vendedores simplesmente descartam esse material. De fato, para os colecionadores não vale nada mesmo um pedaço quebrado de uma vértebra ou um par de ossos longos desgastados, mas esse é um engano muito rude! As vezes um fóssil "feio" e fragmentado pode ser o primeiro registro de um grupo de animais para aquele contexto ou pertencer a algum tipo de animal que raramente se preserva. Em casos excepcionais pode ser crucial para o entendimento da distribuição ou o surgimento de alguns grupos fósseis. Quantas vezes você não se surpreendeu com um artigo genial baseado em cacos de fósseis e pensou “mas que fóssil horrível! Por que ele é tão importante assim?”. Porque não é só de fóssil bonito que se faz Paleontologia!
 thumbsandammo-122. b. Em um segundo caso, a perda de fósseis relevantes ocorre porque um dado colecionador compra um fóssil e.x.t.r.a.o.r.d.i.n.á.r.i.o, que poderia mudar o rumo da paleontologia, mas o coloca na mesinha de centro de sua sala e nunca nenhum pesquisador ou grupo de pesquisa terá acesso aquilo (joinha pra você, cara!).

A história da Paleontologia está recheada de exemplos assim. Fósseis incríveis que aparecem a venda em sites por aí, enlouquecem os pobres (nos dois sentidos, para deixar claro) paleontólogos, e, de repente somem para sempre. Tenho até dor em lembrar. O caso mais recente foi o dos chamados “Dueling Dinosaurs” (pesquise no Google por esse termo se tiver interesse no assunto).

Isso ocorre porque o colecionador muitas vezes nem sabe que aquilo é tão valioso cientificamente, já que pensa só na beleza estética da peça, ou porque não tem noção de como andam os estudos naquele campo científico. Outras vezes ainda, é porque o cara é mau mesmo e acha que pesquisadores são "sangue-sugas", já que *ele* pagou pela peça e não vai ganhar nada deixando pesquisadores sujos estudarem-na.
dr-evil
Os argumentos desse "cara mau" são todos inválidos, porque ele talvez não saiba que os pesquisadores não tem lucro financeiro algum com suas publicações. Simplesmente o fazem porquê: SCIENCE, BITCH! Se a questão fosse pela glória então ("eu que paguei e os caras que ficam com a glória?"), não tem problema também. Os pesquisadores poderiam até homenagear o benfeitor pelo seu ato de apoio à ciência dando o nome do cara para a nova espécie (se fosse o caso), ou destacando seu "imenso ato de benevolência pela 6e30d7a7441a6c32a0cbd461fe3bb6fa90594d8f6aad669d74fa0428fec34fceciência" nas mídias. 
Em alguns casos o benfeitor pode até participar na pesquisa, se quiser contribuir intelectualmente. Por fim, se a questão é materialista mesmo, do tipo “não quero perder meu fóssil, porque ele é meu preciosssso!!!” (isso no caso da necessidade da peça ir para um museu público, por exemplo), sugiro a esse indivíduo ler ou assistir a saga de Tolkien, “Senhor dos Anéis”, e aprender um par de lições com o Gollum. Se não aprender nada, aperte o botão “auto-destruir” e faça um favor à humanidade.
Resumindo, em qualquer um desses casos expostos acima, seja o 2.a ou 2.b, há perda irrecuperável de parte da memória biológica e geológica da Terra. Da SUA, da NOSSA história.

Ainda não enxergou a importância disso? Compare com: botar fogo na biblioteca real de Alexandria. Quantos anos de atraso a humanidade teve por causa disso? Compare com usar para sempre a pedra roseta como um apoio para copos de piscina em uma mansão em Dubai.
3) Muitas vezes fósseis são ADULTERADOS por coletores ou vendedores de fósseis para valorizá-los.
Isso é muito sério. E o pior: muito frequente. Não é raro um coletor amador encontrar um fóssil quase perfeito e faltar alguma partezinha apenas para ele conseguir um preço melhor na peça. O que ele faz? Um arrumadinho ou um quebra cabeça de fósseis.

Colar a cabeça de um peixe no corpo de outro, parte do focinho de um crocodilo em uma cabeça de dinossauro, misturar dois pterossauros... e por aí vai. Não preciso dizer que isso estraga o registro, certo?
Gênio!
Gênio!
A parte engraçada dessa história é que as vezes pesquisadores mal intencionados e/ou preguiçosos ou intituições de pesquisa que ficam muito longe de depósitos fossilíferos compram fósseis para facilitar a sua vida e acabam sendo desmascarados ridiculamente no seu ato de trapaça, descrevendo uma espécie que não existe: uma quimera. Depois só resta a vergonha de ter que se retratar e consertar o ocorrido publicamente (Irritator feelings). - Leia AQUI também sobre o caso do Archaeoraptor.
PORÉM,  infelizmente,  as vezes esses fósseis podem - depois de passarem de mão em mão por gerações - cair em institutos de pesquisa por meio de doações particulares. Aí até que os pesquisadores descubram que tem um fóssil-problema na mão, terão muito trabalho, que poderia estar sendo focado em outras pesquisas mais produtivas.
Não quero mais viver nesse planeta!
Não quero mais viver nesse planeta!
No que classifico também como ADULTERAÇÃO, há também uma outra ocorrência muito mais ou tão perversa quanto: vender o fóssil de um depósito fossilífero dizendo que ele é de outro. Isso pode ocorrer por uma mera confusão do coletor, ou por intenções pervertidas de valorizar a peça. As implicações disso também são desastrosas e corrigir esses erros pode levar ANOS de pesquisa e atrasar muito o avanço da ciência.

Todos esses problemas que citei são graves. Mas não foi baseado apenas nisso que vários países do mundo (como o Brasil, a Argentina, a Mongólia, a Itália, a Escócia, a China, etc.) resolveram elaborar leis para proteger os seus fósseis. Há uma questão muito mais profunda que está presente em toda nossa discussão: toda a informação contida em um fóssil não é propriedade particular... é propriedade DA HUMANIDADE. Faz parte da nossa história. Sob essa perspectiva comercializar fósseis seria como vender o Coliseu ou as pinturas rupestres da Serra da Capivara. Vender o Cristo Redentor ou a Grande Barreira de Corais. Vender a memória de Luís Gonzaga ou nossos índios da Amazônia. É claro, sempre vai ter alguém querendo comprar... quem perde é quem vende. Parecia um bom negócio comercializar índios e o nosso Pau-Brasil no passado. Parecia um bom negócio derrubar a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica para ganhar dinheiro.
Quando tudo se for, você não vai poder comer dinheiro...
Quando tudo se for, você não vai poder comer dinheiro...
Pessoas que enxergam as coisas a curto prazo ou só pensam na própria subsistência e benefício, não conseguem enxergar com essa profundidade. O pensamento mesquinho é comum tanto em países desenvolvidos extremamente capitalistas como em países subdesenvolvidos, que tem uma longa história de colonização. Aí já estão envolvidas questões históricas, políticas e filosóficas e não é o nosso escopo discutir isso aqui... Mas saiba você, que pensa assim, que são pessoas como você que estragam o mundo, pensando apenas em benefícios próprios, suas gracinhas!
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Gracinhas!
 A questão é, países que escolheram proteger os seus fósseis, muitas vezes não o fizeram para proteger os objetos em si, mas sim o conhecimento intelectual que está neles contido, que é SIM uma riqueza daquela nação. Ela não dá LUCRO FINANCEIRO, mas dá LUCRO INTELECTUAL: avanço científico e acúmulo de conhecimento (e.g. Um país avançado cientificamente ganha respeito, um país que vive de futebol e carnaval não).
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Cada fóssil é único e insubstituível, porque não investir na venda de RÉPLICAS de fósseis?
Em vários países o comércio de fósseis é liberado. As razões são diversas: 1) os legisladores e governantes não tem conhecimento da importância desse material para o desenvolvimento a longo prazo da nação (veja a Bolívia); 2) Eles não estão nem aí para isso porque tem problemas muito maiores (veja o Líbano ou vários países africanos); 3) A política deles é vender até a mãe, se der lucro (veja os Estados Unidos) e 4) Eles conseguiram conciliar as coisas (veja os Estados Unidos também e a Inglaterra).
Aqueles que conseguiram conciliar as coisas o fizeram de forma apropriada de acordo com a história e a cultura de cada nação (atenção para isso!). Agora a pergunta de um milhão de dólares: Dá 100% certo?

- Não.

Mesmo com regulações impedindo a venda de determinados fósseis ou controlando a coleta feita por amadores à localidades específicas, não dá 100% certo. Muito material é perdido e não são só os cientistas que perdem com isso, mas toda Nação. Um adendo é que muitos desses países também têm sanções regulatórias, não pense que tudo é liberado! Legisladores e governates entendem a importância dos fósseis e sabem que o conhecimento embutido neles não pode ser visto como propriedade particular e fazem leis sim para protegê-los de alguma forma.

Uma verdade que vale a pena ser dita: Os colecionadores não querem aquilo que é simples conseguir, aquilo que está liberado, que é fácil comprar. Eles querem raridades, fósseis difíceis de conseguir, os melhores. Liberar a venda de Dastilbe na Chapada do Araripe ou de Mesosaurus no Sul e Sudeste e proibir a venda de materiais mais raros, mais bem preservados ou cientificamente relevantes, não vai resolver o problema. Sejamos francos: todos sabemos como funciona a mente capitalista, não vamos nos iludir.
Eu só quero umas coisinhas simples!
Eu só quero umas coisinhas simples!
Manter a venda e retirada ilegal de fósseis como um crime ainda parece a melhor solução até que um profundo trabalho de conscientização junto à população seja feito.
Gol da Alemanha!
Gol da Alemanha!
No caso do Brasil, em que a Paleontologia ainda é uma jovem em fase de crescimento, temos que cuidar de nosso patrimônio com carinho, para que isso também não seja apropriado por outros países, como tantas de nossas riquezas já foram (como se não bastasse o estupro social e político, ainda abaixamos as calças para o científico? 7x1 da Alemanha é o de menos, você nem imagina o chocolate que estamos levando no campo da ciência!).
7x1 é fichinha, vai lá ver o placar dos Nobéis!
7x1 é fichinha, vai lá ver o placar dos Nobéis!
A legislação sobre os fósseis aqui no Brasil tem muito o que ser discutida e se se pretende liberar a venda de fósseis em algum momento, planos de prazos e metas devem ser feitos. Nesse meio, um forte trabalho de educação e ações positivas junto a população devem ser planejados. Não basta ensinar o que pode e o que não pode, há de se ensinar a importância do conhecimento, da moral e das virtudes, uma pitada de senso de conjunto e até mesmo patriotismo (não o patriotismo barato, atenção!). É um longo processo, que deve ser discutido não só em gabinetes políticos ou nos meios científicos, mas também junto à população. Técnicos de preparação e coletores profissionais de fósseis podem virar uma profissão independente, mas há de haver planejamento. Liberar o comércio de fósseis pode ter vantagens, mas antes temos que eliminar os problemas, baseando-se nos acertos e erros que são observados em outros países.
Esse é um assunto controverso e muito difícil de discutir em uma sociedade repleta de indivíduos imediatistas. Há de se ponderar cada ponto e pensar em um bem conjunto. A longo prazo vale a pena preservar nosso Patrimônio. Você pode não viver para ver os resultados disso, mas o seu filho vai te agradecer e ter orgulho das escolhas que você fez no passado. E no fim: todo mundo vai lucrar com isso.

Conheça a legislação sobre fósseis do Brasil: AQUI

“... os depósitos fossilíferos são propriedade da Nação, e, como tais, a extração de espécimes fósseis depende de autorização prévia e fiscalização do Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura. Assim, pois, todo o particular que, sem licença expressa do Departamento Nacional da Produção Mineral, do Ministério da Agricultura, estiver explorando depósitos de fósseis, estará sujeito à prisão, como espoliador do patrimônio científico nacional.”

P.S. Se você for perder seu tempo escrevendo aí nos comentários “vou vender mesmo! Se não posso vender vou destruir” e coisas do gênero;  aproveite e destrua logo o Maracanã, o Cristo Redentor, bote fogo no MASP, roube um Portinari (mesmo que você não saiba o que é) para ter só na sua casa, vende logo a mãe e a família, que também dá dinheiro. E se liga: órgãos valem uma fortuna no mercado negro, dá pra vender o rim, só é uma pena que você não tenha um cérebro. Ou seja, antes de escrever besteira, reflita sobre a seguinte frase: "A forma como fazemos o capitalismo hoje não vê certo nem errado"; e a seguinte situação:
egoismo cópia

Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.