Por que estudar o passado é tão importante?

Por Aline Ghilardi


É quase uma regra as pessoas se surpreenderem com minha resposta a uma pergunta tão comum: "Qual sua profissão?". Depois de responder " Paleontóloga!", me deparo com os tímidos olhares de indagação e logo depois a maioria exclama: "Nossa, você é tipo Indiana Jones?!?", ou: "Ah! você estuda múmias!!!".
Só os mais corajosos se aventuram a perguntar: "Paleoquê?"...

Depois de explicar pacientemente o que eu faço e ressaltar a clara (para mim) diferença entre Arqueologia (Indiana Jones!) e a Paleontologia, eu normalmente aguardo pela próxima reação: "Mas para que serve estudar o que já morreu?". Essa pergunta geralmente vem acompanhada de um tom de deboche*

Foto por Aline Ghilardi
Foto por Aline Ghilardi
Por maior que seja meu aborrecimento, eu entendo que esse é um questionamento comum para quem não está acostumado com o universo da ciência ou que está por demasiado inserido na filosofia da vida prática/cotidiana. Até mesmo alguns cientistas se atrapalham e negam o valor da ciência base! Tendo isso em vista, considerei importante elaborar este post para discorrer sobre alguns pontos e esclarecer essa questão:

O que estuda a Paleontologia?

Para começar a Paleontologia não estuda só dinossauros, como já ressaltei diversas vezes aqui no blog. Apesar dos "lagartos terríveis" serem a vedete da nossa Ciência, a Paleontologia estuda tudo o que está relacionado com a vida antiga. Desde seres microscópicos e seus rastros químicos, até organismos macroscópicos e sua organização em ecossistemas. Isso, sem esquecer dos estudos de biomecânica, de interpretação de paleoambientes, de eventos de extinção, de paleopatologias, de estratigrafia, de sistemática e evolução, de mudanças climáticas, de biogeografia.... etc.

Olhar para o passado, na verdade, é vislumbrar o futuro

Estudar o passado tem tudo a ver com a nossa vida. Não é possível entender "de onde viemos" se não olharmos para trás. São os eventos do passado que determinam o que somos hoje.
As leis da física que regem o nosso planeta foram essencialmente as mesmas. Procurar compreender o que já aconteceu é uma forma de compreender o que vai acontecer.
As respostas biológicas, dadas algumas restrições, também seguem essa regra, e a Paleontologia procura entender isso ao longo do tempo:
A diferença da Paleontologia e da Biologia é o seu nível de resolução temporal. A Paleontolgoia pega emprestada a dimensão do tempo profundo de sua ciência mãe, a Geologia. Em uma perspectiva quadri-dimensional, diversas respostas emergem com maior facilidade. Assim torna-se possível avaliar mais criticamente questões como: "Como surgem as espécies?", "Como elas desaparecem?", "Como elas se adaptam?", "Como evoluem?" ou "Como se comportam em momentos de crise?". Entender esses processos nos coloca em foco com a história da vida na Terra.
Qualquer avaliação tomada a partir do restrito limite temporal humano seria uma grande tolice.

Ciência de Base

Para muitos, as justificativas que forneço não passam de meros devaneios filosóficos. Afinal, não estou curando nenhuma doença e nem produzindo computadores novos.
- Então é perda de tempo e dinheiro investir nessa área?
Não, de forma alguma. Muito pelo contrário, esse é um investimento absolutamente seguro, mas tem uma resposta a longo prazo.
A ciência que não produz um benefício imediato para sociedade, como é o caso da maior parte dos estudos paleontológicos, pode ser chamada de 'ciência de base'. A ciência de base não é menos importante que a 'ciência aplicada'. Na verdade, esta última se apoia absolutamente no que produziu a primeira. O problema é que isso nem sempre fica tão claro...: Veja, por exemplo, o trabalho de Gregor Mendel. Quem diria que seu estudo sobre ervilhas fosse a base da engenharia genética atual? É importante lembrar que ciência se constrói uma peça por vez. Até que pudéssemos chegar ao ponto de compreender tão bem o nosso genoma, à que pudessemos manipulá-lo, muitas pesquisas tiveram que ser realizadas: tanto com coloração de ervilhas, como com mutações em moscas-da-fruta e o tipo de pelagem em coelhos.
A teoria da evolução de Darwin, por exemplo, se apoiou em muitos estudos paleontológicos. Assim como os atuais modelos de deriva continental, de evolução climática, de extinção de espécies, entre outros.
É muito difícil chegar à resposta essencial para tudo de uma só vez. Os estudos devem ser feitos com tal resolução que possam ser testados criteriosamente e, se somados todos, possam produzir o retrato mais próximo da realidade. A ciência precisa de tempo e sua 'aplicabilidade' sempre se apoia em ombros de gigantes. Pense neste processo em como construir um muro: cada tijolo deve ser colocado um de cada vez.

A Paleontologia Aplicada

É claro que existe também um lado diretamente aplicável da Paleontologia.
Algumas indústrias petrolíferas da atualidade utilizam essa ciência como ferramenta para buscar o seu ouro negro. Nessa área, o conhecimento paleontológico pode ser entendido como diretamente aplicável e é absolutamente rentável para o paleontólogo (Sim! É possível ganhar dinheiro com a Paleontologia! Oh!).
O petróleo, como resíduo orgânico, é originado dos restos de organismos que morreram há muito tempo atrás. Ele é produzido em condições específicas e geralmente está associado a determinados paleo-ambientes. O que o paleontólogo faz é procurar pistas desses paleo-ambientes por meio dos fósseis de microorganismos ou rastros de suas atividades.

O Verdadeiro valor da Ciência

Nós que aqui estamos, por vós esperamos
Nós que aqui estamos, por vós esperamos
A ciência é um produto social, criado para beneficiar a sociedade e aliviar as misérias humanas.
Nesse cenário, a Paleontologia vem ajudar a responder algumas das questões mais fundamentais: "De onde viemos?" e "Para onde vamos?".
A nossa história está associada a de cada organismo que já viveu e entendê-los é como buscar entender a nós mesmos. Cada um deles tem uma história para contar e desvendar seus mistérios é acumular sabedoria para saber como agir no futuro.
Olhar para o passado biológico nos faz entender a origem de nossas limitações e a natureza de nossas vantagens - assim como as de outros organismos. O mundo funciona como um grande ciclo: espécies vêm e vão. Banidas por eventos catastróficos, alvo de suas próprias atividades, alvo da ironia do azar ou, pressionadas, evoluem como sucateiros desesperados. Vislumbrar esses processos nos faz refletir sobre a existência humana e o impacto de nossas atitudes. Fazemos parte do mundo natural e só na perspectiva geológica podemos enxergar a nossa verdadeira pequenez e fragilidade, apesar de tudo que construímos.

A lição da Paleontologia é aprender a ouvir os mortos. Os ossos falam e tem muita história para contar. Eles, que já se foram, podem nos revelar o mistério sobre o nosso próprio propósito (ou despropósito), além de serem modestos profetas sobre o futuro que nos espera.
Com cada mistério revelado, afastamos um pouco a névoa do nosso caminho e assim podemos enxergar direito os nossos objetivos. Olhar para o passado não é tão ruim afinal, é acender uma lanterna no escuro: é ouvir a voz da sabedoria.


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O Viajante sobre o Mar de Névoas

Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.