A Bacia Neuquén: uma abordagem bioestratigráfica com vertebrados fósseis

Acampamento "Proyecto Dino". Los Barreales, Neuquén, Argentina. Foto: Tito Aureliano Neto, 2008.

Introdução

A Bacia Neuquén está localizada na porção sudoeste da América do Sul, estendendo-se desde a Argentina ao centro do Chile. Ocupa uma área de aproximadamente 140.000 km² e possui espessura sedimentar de 6.000 a 7.000 metros de rochas de origem marinha e continental que se estendem desde o Triássico Tardio até Cenozóico Inferior (Figura I). Está registrado a evolução tectônica dos Andes com uma dramática evidência de constantes transgressões e regressões marinhas. Essas variações paleoambientais podem ser observadas nas intercalações entre os sedimentos siliciclásticos e carbonáticos.




Está muito bem conservada a rica fauna Mesozóica encontrada, principalmente em sedimentos marinhos do Tithoniano até os continentais do Campaniano. A grande variada fauna engloba desde pequenos invertebrados até os gigantes e mundialmente famosos dinossauros da Patagônia.

Essa Bacia é também a maior produtora de hidrocarbonetos do sudoeste da América do Sul com 280.4 X 106 m³ já produzidos e estimados 161.9 X 106 m³ ainda restantes (Howell ET AL., 2006).

O tectonismo e a evolução da Bacia Neuquén

Pouco se sabe sobre o que ocorreu em território neuquino antes do Paleozóico Superior. Durante esse momento, a evolução tectônica da região é representada pelo acrescimento de massas de terra e grandes ilhas a margem ocidental do antigo super continente Gondwana (Ramos et al., 1986; Kay, 1993; Bahlburg & Hervé, 1997).

Afloramentos do Carbonífero Superior estão escassamente representados a oeste da Codillera del Viento, que é composto por exposições de turfas e cinzas vulcânicas em um ambiente transicional a marinho raso que estão paleogeograficamente relacionados a antiga costa marítima oeste da Gondwana pré-andina (Zollner & Amos, 1955; Digregorio, 1972; Polanzki, 1978).

A partir do Permiano Superior até o Triássico inferior iniciou-se uma intensa atividade vulcânica relacionada ao efeito da subducção ocorrida na borda ocidental de Gondwana (Groeber, 1946; Digregório & Uliana, 1980; Nullo,1991; Mpodozis & Ramos, 1989; Llambías, 1999). Essa tectônica extensa resultou na geração de uma importante depressão de sedimentação conhecido por Bacia Neuquén (Cuenca Nequina), e seus depósitos os motivadores para a riqueza petrolífera e fossilífera da província argentina de Neuquén.

A evolução dessa Bacia está ligada ao processo de ritfeamento que ocasionou a ruptura do continente de Gondwana, provocando a sua formação por detrás da margem do Pacífico da Placa Sul Americana (Figuras 2 e 3).


Figura 1: Paleogeografia Jurássico-Cretácica superior da Bacia Neuquén. Fonte: Garrido & Calvo, 2008.



Figura 2: O continente Gondwana no início do processo de rifteamento. Fonte: J. Franzese et al. / Journal of South American Earth Sciences 16 (2003) 81–90



Figura 3: O continente Gondwana durante do processo de rifteamento e a formação do Oceano Atlântico. Fonte: J. Franzese et al. / Journal of South American Earth Sciences 16 (2003) 81–90.


O processo de acumulação de sedimentos se iniciou no Período Triássico, e até o Jurássico Inferior alto, estava caracterizado por depósitos continentais e vulcânicos (Gulisano ET AL., 1984). A partir do Pliensbachiano (Jurássico Inferior) até o Albiano (Cretáceo Inferior) a evolução tectonoestratigráfica da bacia foi caracterizada pelo desenvolvimento do arco magmático baixo e aos processos extensivos contínuos geraram um período de subsidência térmica generalizada que formou uma bacia de sedimentação marinha e possibilitou a sucessão de quatro grandes transgressões do mar. Isso permitiu uma potente sequência sedimentária composta por depósitos marinhos, transicionais e continentais dos grupos Cuyo, Lotena, Mendonza & Rayoso (ver Figura 4; Dalziel ET AL., 1987; Mpodozis & Ramos, 1989; Fanzese & Spalletti, 2001; Gulisano ET AL., 1984; Legarreta & Gulisano, 1989; Legarreta & Uliana, 1991; Legarreta ET AL., 1993; Gulisano & Gutiérrez Pleimling, 1995). Junto aos processos geológicos atuantes na bacia, desenvolveu-se também uma intensa atividade biológica durante o período e foram responsáveis diretos pela riqueza hidrocarbonífera da região (Figura 5).

Durante o Cenomaniano (Cretáceo Superior), houve uma inversão das antigas estruturas tectônicas de extensão que deu origem a um estado de foreland cujos sedimentos estão sob denominação de Grupo Neuquén e constituem os afloramentos de maior extensão do setor extra-andino da bacia. É o setor onde ocorre maior depósito de restos de dinossauros (ver Figura 6; Ramos, 1981; Malumián ET AL., 1983; Digregorio ET AL., 1984; Mpodosis & Ramos, 1989; Pindell & Tabbut, 1995; Franzese ET AL., 2003). 

Entre o Campaniano (Cretácio Superior) e o Daniano (Paleógeno Inferior) houve uma transgressão de proveniência atlântica na forma de uma estreita bahia alongada e ocorreu uma sedimentação marinha, associada a depósitos fluviais desenvolvidos em condições climáticas de semiaridez (Malumián ET AL., 1983; Zambrano, 1981, 1987; Uliana & Biddle, 1988; Legarreta ET AL., 1989; Barrio, 1988; Andreis, 2001; Franzese ET AL., 2003).

Do Paleógeno Médio até a atualidade, a orogenia dos Andes controlou a dinâmica de sedimentação desenvolvida em seus arredores nos vales fluviais da zona da cordilheira. Desenvolveram-se extensos planaltos basálticos devido aos enormes depósitos vulcaniclásticos e epiclásticos (ver Figura 7). Durante as glaciações ocorridas no Pleistoceno e no início do Holoceno, extensos depósitos fluvioglaciais cobriram a superfície do território neuquino, enquanto a rede de drenagem dava a forma do relevo atual (ver Figura 8; Garrido & Calvo, 2008).

Figura 4: Seqüência estratigráfica da região centro-austral da Bacia Neuquén. Fonte: Garrido & Calvo, 2008.

Figura 5: Camada de hidrocarbonetos expelidos na superfície em Los Barreales. Fonte: Tito Aureliano Filho, 2008.

Figura 6: Afloramentos do Grupo Neuquén nos arredores de Los Barreales. Fonte: Tito Aureliano Filho, 2008.

Figura 7: Planalto basáltico do Cenozóico. Barda Negra, arredores de Zapala. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.

Figura 8: Relevo Patagônico atualmente presente em Neuquén. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Estratigrafia do Mesozóico e os fósseis (ver Figura 4)

Como foi explicado anteriormente, foi no Triássico Médio-Superior que se deu início a sedimentação da Bacia Neuquén, sendo chamado de Ciclo Precuyano (Gulisano ET AL., 1984). Esses depósitos são compostos por piroclastos e sedimentos continentais das Formações Paso Flores e Lapa.

O Ciclo Cuyano (Figura 8.5) da início a sedimentação marinha jurássica, estando representado pelas Formações Molles, Tres Esquinas, Lajas, Tábanos, Challacó e Punta Rosada. Na Formação Molles são encontrados diversos restos de répteis marinhos, dentre eles o Mollesaurus periallus, Mareasaurus coccae, Metriorhynchus aff. e Stenopterydius grandis (Garrido & Calvo, 2008).

Figura 8.5: Ciclo Cuyano. Litotipo segundo Garrido & Calvo, 2008. Clique na imagem para ampliar.

O Ciclo Loteniano-Chacayano preenche o intervalo da segunda transgressão/ regressão do Pacífico no engolfamento de Neuquén. Litologicamente compreende uma sucessão de sedimentos clásticos e evaporitos de idade Jurássico Médio a Jurássico Superior; representados pelas Formações Lotena, Barda Negra, Sierras Blancas, La Manga, Auquilco, Fortin 1º de Mayo e Tábanos (Digregório, 1978; Leanza & Hugo, 1997, 1999).

O Megaciclo Ándico (ver Figura 8.6; Groeber, 1946) integra uma nova sucessão de depósitos marinhos e continentais de aproximadamente 3000 m de espessura, entre o Kimmeridgiano (Jurássico Superior) ao Albiano (Cretáceo Inferior). Engloba as Formações Quebrada Del Sapo, Vaca Muerta, Carrín Curpa, Picún Leufú, Pichi Picún Leufú, Bajada Colorada, Agrio, Ortíz, Rayoso e La Amarga (Ardolino & Franchi, 1996; Leanza & Hugo, 1995, 1999).

Figura 8.6: Megaciclo Ándico. Litotipo segundo Garrido & Calvo, 2008. Clique na imagem para ampliar.

A Formação Vaca Muerta (Figura 9) é unidade fossilífera de maior importância dentro do megaciclo. Intercalada por rochas calcáreas e evaporitos, é portadora de numerosos restos de invertebrados e répteis marinhos. Vale a pena citar o Geosaurus araucanensis, o Dakosaurus andinensis (Figura 10) e os diversos tipos de Icthyosaurus (Figuras 11 e 12). Quanto as unidades continentais, as Formações Rayoso, La Amarga e Lohan Curá, foram encontrados restos fósseis de vertebrados como o Rayososaurus, Amargasaurus cazaui (Figuras 13 e 14), Zapalasaurus bonapartei, Augustinia ligabuei, assim como também restos de crocodilianos, tartarugas, pterossauros e invertebrados. São unidades de origem dominantemente fluvial com intercalação de episódios lacustres (Garrido & Calvo, 2008).

Ao longo do Cretáceo Superior (entre o Cenomaniano ao Campaniano Médio) desenvolveu-se um pacote de sedimentos continentais fluviais correspondentes ao ciclo Neuqueniano (Figura 9.5). Os depósitos do Grupo Neuquén compõem os afloramentos de maior abundância dentro da área extra-andina. Os depósitos se encontram com intercalações de episódios eólicos e lacustres e são predominantemente arenitos (ver Figura 15; Cazau & Uliana, 1973)

Figura 8.6: Megaciclo Ándico. Litotipo segundo Garrido & Calvo, 2008. Clique na figura para ampliar.

São freqüentes as concreções férricas de geometria esferoidal com dimensões de até 40 cm de diâmetro (ver Figura 16).

O grupo Neuquén é dividido em sete unidades integradas em ordem ascendente pelas Formações Candeleros, Huincul, Cerro Lisandro, Portezuelo, Plottier, Bajo de La Carpa e Anacleto; agrupadas, por sua vez, dentro dos subgrupos Río Limay, Río Neuquén e Río Colorado. Esses subgrupos representam três grandes ciclos granodecrescentes no qual se desenvolve uma sequencia deposicional completa e é fácil reconhecer os cortes de níveis representados pelas mudanças granulométricas e ambientais (Garrido, 2000).

As Fm. Candeleros e Huincul foram depositadas em sistemas de fluviais e preservaram muito bem fósseis de imensos vertebrados e também icnofósseis, como pegadas (Figura 17). Dentre os vertebrados fósseis de maior destaque estão o Giganotosaurus carolinii (Figura 18), o Mapusaurus rosae (Figura 19), o Argentinosaurus huinculensis (Figura 19), Andesaurus delgadoi, Rebbachisaurus tessonei, Araripesuchus patagonicus, dentre outros (Garrido & Calvo).

A Fm. Portezuelo representa o início de um novo ciclo de deposição, a qual os rios são dominantemente de enorme capacidade de carga arenosa. A Fm. Plottier finaliza esse ciclo com um período de menor energia (Figura 21). Esses níveis são riquíssimos em fósseis, havendo numerosos vertebrados como o Megaraptor namunhuaiquii, o Patagonykus puertai e o Unenlagia painemili.

A Fm. Bajo de La Carpa preservou um novo rejuvenescimento da rede e foi depositada por rios de alto a moderado fluxo com carga arenosa. E finalmente a Fm. Anacleto apresenta uma variedade de ambientes deposicionais conforme sua posição pela Bacia. Dessas unidades foram encontrados Aucasaurus garridoi, Neuquensaurus australis, Bonitasaura salgadoi, Alvarezsaurus calvoi, Notosuchus terrestris e muitos outros. O aparecimento de ovos de saurópodes de Auca Mahuevo se encontra nesses níveis. O paleoclima variou desde condições úmidas a semi-áridas e existindo em todos os casos um bem marcado período de seca (Garrido, 2000, 2005).

O Ciclo Malalhueyano (Figura 19.5), durante o final do Cretáceo até o início do Paleógeno (Campaniano Superior - Daniano) ocorreu a primeira transgressão Atlântica. Os depósitos estão nas Formações Allen, Loncoche, Jaguël, Roca, Pircala e Carrizo (Digregorio & Uliana, 1980; Ardolino & Franchi, 1996). Desses níves provém restos de dinossauros com o Abelisaurus comahuensis, Aeolosaurus e outros.

Figura 19.5: Ciclo Malalhueyano. Litotipo segundo Garrido & Calvo, 2008. Clique na imagem para ampliar.


Figura 9: Formação Vaca Muerta. Arredores de Zapala.Fonte: Tito Aureliano Filho, 2008.



Figura 10: Dakosaurus andinensis. Museo Prof. Dr. Juan Augusto Olsacher Zapala.Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 11: Icthyosaurus. Museo Prof. Dr. Juan Augusto Olsacher Zapala.Fonte: Tito Aureliano Filho, 2008.


Figura 12: Reconstrução de um Icthyosaurus.Fonte: Raul Martin.

Figura 13: Amargasaurus cazaui. Museo Municipal Ernesto Bachmann, Villa El Chocón. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 14: Reconstrução do Amargasaurus cazaui.Fonte: Raul Martin.


Figura 15: Arenitos em Villa El Chocón indicam intercalações entre ambientes de sedimentação eólico e lacustre.Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 16: Concreções sedimentares em Los Barreales.Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 17: Pegada de dinossauro terópode em Villa El Chocón.Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 18: Giganotosaurus. Museo Municipal Ernesto Bachmann, Villa El Chocón. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 19: Mapusaurus. Museo Carmen Funes, Plaza Huincul. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.


Figura 20: Argentinosaurus. Museo Carmen Funes , Plaza Huincul. Fonte: Tito Aureliano Filho, 2008.


Figura 21: Fm.Plottier e Fm. Bajo de La Carpa, Los Barreales. Fonte: Tito Aureliano Neto, 2008.

Conclusão

A Patagônia é um universo composto por centenas de mundos escondidos paralelamente pelo tempo. Ainda há muito o que ser estudado e também explorado dos recursos infindáveis.

Bibliografia 

. Cobbold & Rosello. Phases of Andean deformation, foothills of the Neuquén Basin, Argentina.

. Franzese, Spalletti, Pérez & Macdonald. Tectonic and paleoenvironmental evolution of Mesozoic sedimentary basins along the Andean foothills of Argentina (328–548S).

. Garrido & Calvo. Un reconocimiento de la Cuenca Neuquina.

. HOWELL, SCHWARZ, SPALLETTI & VEIGA. The Neuquén Basin: an overview.

. http://www.unb.br/ig/glossario/

Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.