Como procurar fósseis?

Por Aline Ghilardi.

iconDiferente do que muitos podem pensar, paleontólogos não encontram fósseis saindo e escavando por aí em qualquer lugar. Além disso, a busca por fósseis com certeza não é uma questão puramente de "sorte", mas sim, que depende de muito conhecimento e preparo.

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Conhecimento e preparo

"Antes de buscar algo, você deve saber o que quer encontrar."

Essa não é apenas uma máxima filosófica, mas a lógica que, além de outras coisas, fundamenta  toda ciência moderna. Não poderia ser diferente com a paleontologia.

Os cientistas não saem por aí fazendo experimentos de toda sorte, esperando encontrar algo novo e  inesperado - e publicável (ou pelo menos não deveriam fazer isso!). Geralmente, quando eles realizam experimentos, eles estão tentando responder alguma pergunta que foi previamente formulada. Com o paleontólogo - que também é um cientista - é a mesma coisa. A busca por fósseis, não é nada mais que parte de um experimento.

Antes de sair procurando respostas - no nosso caso, fósseis - temos que conhecer muito bem a nossa pergunta inicial ou o objetivo de nosso trabalho. Dependendo da natureza de nossa questão, podemos saber exatamente aonde procurar a resposta (e até mesmo ter uma ideia aproximada do que vamos encontrar!).

Acho que um exemplo pode tornar tudo mais fácil:

Digamos que eu sou um paleontólogo estudando a evolução dos primeiros vertebrados com patas (os tetrápodes) e estou procurando entender especificamente como se deu a transição de seres com nadadeiras (peixes) para os primeiros organismos com membros (os anfíbios). O objetivo do meu trabalho é responder a seguinte questão: "Como evoluíram os membros dos tetrápodes a partir de nadadeiras de peixes?".

Onde e como encontrar a minha resposta?

Em primeiro lugar, vou buscar informações e conhecimentos prévios para me auxiliar na minha busca.  Seria muita tolice e perda de tempo sair por aí escavando como um louco...

O que encontrei: Na literatura paleontológica é conhecido que os mais antigos fósseis de seres reconhecidamente tetrápodes datam do final do Período Devoniano (entre 382 à 358 milhões de anos atrás):

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No que isso me ajudou: Bom, sabendo disso, descobri que devo procurar meus fósseis em rochas dessa idade ou pelo menos um pouco mais antigas. - Ora, eu não poderia encontrar o que procuro em rochas de idade cambriana -quando a vida ainda era jovem no planeta e ainda não haviam surgido os vertebrados - ou cretácica - quando os dinossauros já dominavam a Terra!



Escala geológica do tempo (e estratigráfica!) por Ray Troll

Certo, e agora?

Rochas de idade Devoniana no mundo, 
segundo a Enciclopédia Britânica de 1911!
Bom, eu preciso descobrir aonde encontrar rochas dessa idade (entre 382 e 358 milhões de anos ou um pouco mais antigas - que correspondem ao Período Devoniano Final ou Médio)... Para isso, novamente, devo vasculhar conhecimentos prévios. Provavelmente encontrarei minha resposta em estudos geológicos.

Estudos e mapas geológicos irão me apontar - algumas vezes de forma precisa e outras nem tanto - aonde encontrar rochas da idade exata que estou procurando. Isso vai facilitar meu trabalho. Ao invés de sair por aí escavando em todo lugar, sem ter certeza do que vou encontrar, irei para locais definidos, aonde há uma chance muito maior de encontrar o que procuro!



Mas espere! isso ainda não me garante que vou encontrar fóssil algum ou mesmo o tipo correto de fóssil que preciso para responder minha questão.

Encontre as rochas de idade devoniana 
nesse mapa geológico do Brasil - clique para ampliar
Primeiro devo me certificar de que eu selecionei apenas locais aonde são encontradas rochas sedimentares e segundo, devo me informar sobre que tipo de ambiente de sedimentação elas são correspondentes.

Fósseis normalmente (com raras exceções) são encontrados em rochas sedimentares, o que restringe mais ainda os locais aonde devo procurar. Rochas sedimentares são rochas formadas a partir da deposição de sedimentos originados pela erosão de outras rochas ou por eventos de precipitação química. Quando ocorre, fortuitamente, a deposição conjunta de materiais de origem biológica, podem ser formados os fósseis.

Devo lembrar ainda, que rochas sedimentares podem ser formadas em diversos tipos de ambientes de acumulação de sedimentos, como lagos, rios, desertos, praias, oceanos, mares ou deltas. E que é possível identificar esses antigos ambientes de sedimentação a partir de assinaturas estruturais da rocha, ou ainda pistas químicas e biológicas (fósseis). Geralmente os geólogos fazem essa leitura, mas os paleontólogos são fundamentais no que diz respeito à interpretação da paleobiologia.

"Entendi, mas no que reconhecer os antigos ambientes de sedimentação vai me ajudar?"

- Simples: O que mesmo eu estou procurando?
- Anfíbios, ou algo entre eles e os peixes: os primeiros tetrápodes.
- Ok, em que tipo de ambiente eu esperaria encontrá-los?  - A atual biologia desses animais pode me ajudar nessa busca...

Os principais ambientes de sedimentação
Eu esperaria encontrá-los provavelmente em ambientes tropicais (vamos falar disso a seguir) de água doce, talvez em áreas pantanosas ou ainda outros tipos de ambientes aquosos rasos. Isso elimina uma boa quantidade de lugares aonde procurar! Não adianta nada vasculhar rochas formadas em antigos fundos marinhos, sob glaciares, em praias, recifes ou mesmo desertos!



O próximo passo é decifrar o que corresponderia a 'áreas tropicais' há mais de 360 milhões de anos:
A posição dos continentes era diferente, sem dúvida, e podemos verificar isso em alguns mapas paleobiogeográficos como este a seguir:

Cenário esperado
Veja que há 390 milhões de anos, as coisas eram bem diferentes. As porções continentais que hoje estão localizadas em regiões temperadas no Hemisfério Norte, antes estavam bem posicionadas na região equatorial do globo. Além disso, o que viria a corresponder a América do Sul e ao Brasil, estava completamente deslocado em direção ao pólo sul. O que significa, que dificilmente encontraríamos fósseis de anfíbios - no nosso caso, dos os primeiros tetrápodes - por aqui.

 - Pronto! Agora estou munido de todas as pistas que preciso, já posso pegar meu equipamento e ir para o campo?

Seria possível, mas ainda não o mais recomendável. Expedições gastam muito tempo e dinheiro... É importante você ter certeza de que vai voltar com pelo menos algum resultado! Além disso, algumas viagens de campo são realizadas para locais com restrições ambientais severas e envolvem até mesmo riscos de vida! Você deve pesar se vai valer a pena.

Para ir mais preparado é bom checar na literatura geo-paleontológica se existem de fato 'afloramentos de rocha' disponíveis nas regiões que você selecionou. Afloramentos, na nossa linguagem, correspondem a locais aonde a rocha mãe está exposta, tornando possível a busca pelos fósseis. As vezes a rocha de onde os fósseis provém está toda coberta por solo, vegetação ou outros detritos de origem mais recente (do Período Quaternário por exemplo). Isso inviabiliza a busca ou encarece a expedição (caso você esteja disposto a remover a camada superior para acessar a rocha...). Caso não existam dados na literatura, a busca por afloramentos pode ainda ser feita por meio avaliações de imagens de satélites (quando disponíveis).
Posição dos continentes no final do Período Devoniano

Espere... Não acaba por aí! Ainda é recomendável checar a existência de outros estudos feitos na região. Caso existam, é bom verificar se há ocorrência de fósseis nos locais que você selecionou e se sim, como eles ocorrem: em que horizonte sedimentar? Estão em concreções? De que cor eles são? se eles estão fragmentados, entre outros. O esforço de outras pessoas pode facilitar muito o seu trabalho. Acredite, a ciência sempre é apoiada no ombro de gigantes.

Agora sim você pode ir para o campo. Munido de conhecimento e preparo.

Você sabe com o que se parece aquilo que você procura, tem noção de onde encontrá-lo e selecionou cirurgicamente onde realizará suas escavações.

Sorte

Tiktaalik, fóssil de um peixe sarcopterígeo do Final do Período 
Devoniano, que apresenta uma série de características dos tetrápodes
Como deu para perceber, buscar por fósseis não é um trabalho que conta apenas com a "sorte", na verdade depende muito mais de outras qualidades. Mas..... apesar de ampliarmos o máximo possível as nossas chances de encontrar os restos daquilo que procuramos, ainda assim dependemos da "sorte" para encontrar um bom fóssil que realmente possa responder as nossas perguntas. Nem sempre encontramos fósseis perfeitos. Na maioria das vezes temos que nos virar com os poucos cacos que o cruel processo tafonômico nos legou. É raríssimo encontrar fósseis como o do Tiktaalik aí em cima. Para ISSO sim, é preciso muita "sorte": "Sorte" do bichinho de ter caído no lugar certo e na hora certa e nossa de passar por ali milhões de anos depois...

Sorte ou coincidência de fatores? Isso sim é uma questão filosófica!!

Para ler mais sobre a incrível e "sortuda" descoberta do Tiktaalik recomendo a leitura de "Your Inner Fish" de Neil Shubin.

Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.