Eu posso ser paleontólogo sem ser "profissional" na área?

Por Aline Ghilardi

O que você quer dizer com isso? Quer dizer que ninguém lhe paga para trabalhar com paleontologia? Que você não é diplomado na área? Não se preocupe....: editores e revisores de periódicos científicos não vão nem querer saber e na verdade não se importam! Há vários paleontólogos sem educação formal na área, ou mesmo entusiastas de formações diversas, que fazem trabalhos tão competentes quanto qualquer "paleontólogo formal". E quer saber: Vários paleontólogos famosos não eram nem doutores e nem estudaram Geologia ou Biologia numa instituição acadêmica formalizada.



O que realmente importa - o que editores e revisores se preocupam - ​​é se você se comporta como um profissional na área. E isso é com você.


Se você estuda bastante, acompanha as publicações científicas, conhece bem os problemas fundamentais do assunto que você quer estudar (e as principais referências na área), entende como funcionam as metodologias paleontológicas e as utiliza apropriadamente, além de estar integrado com outros pesquisadores da área e, principalmente, demonstra competência no que faz: você é um paleontólogo! Mas não é nada fácil, devo salientar. Seguir por este caminho demanda muito esforço e paixão pela causa. Estudar independentemente assuntos tão complexos é um grande desafio, e as vezes pode ser um pouco frustrante não poder ser contratado pela falta de títulos... MAS, a recompensa vem de outra forma. O prazer de se trabalhar com paleontologia é inegável e também o reconhecimento tem diversas facetas....

Quanto às suas publicações: Seja cortês. Escreva com clareza. Não seja excessivamente crítico ao trabalho dos outros, especialmente se houver uma chance de você estar enganado, então, é só enviar para a revisão (peer review). Estes são os aspectos de "profissionalismo" que realmente importam, e eles estão disponíveis tanto para amadores como para profissionais.

Existe preconceito?

Não é necessário ter doutorado ou mestrado (ou graduação, ou formação no ensino médio...) para ser um cientista e publicar artigos. Mas certamente é verdade que você vai aprender um monte de coisas se trilhar este caminho: vai trabalhar com excelentes pesquisadoes e estudantes, ter acesso à métodos, artigos e materiais que os outros não teriam, e - pelo menos durante parte do ano - ter mais tempo para trabalhar sobre seu tema de pesquisa. Isto é simples bom senso, não um preconceito - apenas benefício. Formação e experiência podem contribuir para a uma melhoria das suas competências e habilidades, porém não há garantia de qualidade. Os pesquisadores e suas pesquisas devem ser avaliados por seus próprios méritos e, como tal, não há (ou pelo menos não deveria haver!) nenhum preconceito contra os "amadores" de qualquer natureza na ciência.

Uma formação e uma orientação ajudam, naturalmente, além disso é bom ser pago para fazer coisas que você gosta, mas mesmo isso não tornaria você o que se espera de um verdadeiro profissional. Um verdadeiro profissional é aquele que age corretamente e publica bons trabalhos, e isso é independente de qualquer coisa, não importa a sua real 'formação'.

Alguma coisa me impede?

Eu conheço um monte de "amadores" (já estamos bem claros que não existe preconceito nasta palavra, certo?) que deveriam publicar em paleontologia, mas não o fazem. Alguns deles sabem muito, muito mais sobre animais extintos do que eu; e eu, francamente, não entendo o por quê deles nunca tentaram prosseguir. Eu presumo que estão se deixando ser derrotados por uma espécie de barreira psicológica.

Alguns procuram seguir seus caminhos publicando em blogs, até ganharem confiança suficiente para a primeira publicação acadêmica. Eu entendo os seus motivos para hesitação, mas não existe razão real para isto.

Novamente: se você demonstra competência, aplicação e propriedade, isso é profissionalismo. Escrevam seus papers! Nada os impede.

Grandes Exemplos:

Carlos de Paula Couto, um dos nomes de maior destaque na Paleontologia brasileira.

Carlos de Paula-Couto, um dos nomes de maior destaque da Paleontologia brasileira do século XX, não tinha nem sequer curso superior. Tido como continuador da obra do botânico dinamarquês Peter Lund (1801-1880) - pioneiro da paleontologia no Brasil -, Carlos de Paula Couto se destacou por seu trabalho em paleomastozoologia (paleontologia de mamíferos) e pela publicação de uma obra de referência fundamental nessa área ( O "Tratado de Paleomastozoologia"), além de publicar centenas de artigos.

Jack Horner, um dos paleontólogos mais conhecidos no mundo (ele forneceu sua consultoria para a produção da série "Jurassic Park"), e Jack MacIntosh, um dos maiores especialistas em dinossauros saurópodes, também são exemplos semelhantes.

Jack Horner não conseguiu terminar o seu bacharelado (ele não cumpriu alguns exames de línguas, pois apresentava certo grau de dislexia), porém ganhou o título honorário de Doutor em Ciências pela Universidade de Montana, aonde produziu uma tese formidável sobre o Bear Gulch Limestone de Montana, um dos sítios fossilíferos mais excepcionais do planeta. Horner publicou mais de 100 artigos científicos, além de diversos livros, e é altamente reconhecido no mundo acadêmico.

Quanto a Jack MacIntosh, ele é formado em física pela universidade de Yale, mas ainda assim é considerado um dos maiores estudiosos de dinossauros saurópodes do mundo. Apaixonado desde criança, ele não deixou a paleontologia de lado mesmo depois de escolher seguir a carreira como físico - (Leia uma reportagem com Jack MacIntosh aqui).

Dr. Jack Horner, famoso paleontólogo norte-americano, que ajudou na consultoria da série "Jurassic Park"

No Brasil, podemos citar ainda o nosso colega William Roberto Nava (Marília, SP), jornalista de formação, paleontólogo de coração, que desbravou toda região de Marília paleontologicamente, tendo publicado diversos artigos; o Professor Antônio Celso de Arruda Campos, curador do Museu de Paleontologia de Monte Alto, SP, que estudou vastamente os fósseis dessa porção do interior paulista e já foi até homenageado com o nome de novas espécies (Montealtosuchus arrudacamposi); Herculano Marcos Ferraz de Alvarenga, médico ortopedista, fundador do Museu de História Natural de Taubaté, SP, o primeiro brasileiro a estudar fósseis de aves no país, reconhecido como especialista nessa área por paleontólogos do mundo todo; entre outros.

William Nava e Prof. Antônio Celso de Arruda Campos, fotos de Aline Ghilardi, direitos autorais reservados.

Nada impede você de seguir os seus sonhos!!



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Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.