O Ser Paleontólogo...

Por Aline Ghilardi

"A caça aos fósseis é de longe o mais fascinante de todos os esportes. Nele, a gente acha incerteza, excitação e todo o arrepio do jogo de azar, sem nenhum dos aspectos negativos dele. (...) No próximo morro pode estar enterrada a grande descoberta. (...) Além do mais, o caçador de fósseis não mata, ele ressuscita.”

George Gaylord Simpson, paleontólogo norte-americano, em seu relatório de expedições pela Patagônia Argentina.

Paleontólogo é o cientista que procura entender a vida e investigar o passado geológico da Terra através dos fósseis. O estudo destes últimos pode revelar diversas questões, como a datação de estratos rochosos, a biologia e ecologia de organismos extintos, detalhes sobre ecossistemas pretéritos, padrões de distribuição biológica, a evolução dos seres vivos, a origem das espécies, as suas respostas a grandes eventos de extinção, além de questões mais práticas, como por exemplo, no que diz respeito à prospecção de reservas minerais (como o petróleo, o gás e o carvão mineral).

O paleontólogo, sobretudo é um apaixonado pelo que faz. É necessário muito estudo e anos de esforço para assumir a profissão. Ela é maravilhosa, mas complexa em muitos aspectos, e geralmente não é a melhor opção para quem quer ganhar muito dinheiro.

Em geral o paleontólogo deve ter formação superior em Biologia ou Geologia e prosseguir seus estudos no mestrado e doutorado. Os postos de trabalho não são tão variados e geralmente restringem-se a vida acadêmica como professor universitário e/ou pesquisador, consultor e curador de coleções museológicas. É comum também a contratação por empresas da área do petróleo - desde que especialização do profissional seja a Micropaleontologia – e por alguns órgãos do governo, como o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral). Muitos paleontólogos trabalham ainda com a divulgação científica e alguns em parques naturais ou áreas protegidas para valorização da Geodiversidade.

A vantagem de ser um paleontólogo é ter uma profissão diferente, imaginativa e absolutamente estimulante. A área abre oportunidades para estudar temas fascinantes e fazer descobertas. O profissional trabalha em contato com a natureza e pode viajar para locais exóticos - desde desertos a florestas tropicais do mundo todo - em busca de fósseis para estudo.


Todavia, a vida de um paleontólogo não é somente uma grande aventura. Depois do trabalho de campo, onde - deve-se dizer - eles trabalham arduamente para localizar e escavar os fósseis, eles vão para o laboratório, onde ficam um longo período envolvidos com a preparação, a montagem e estudo de tudo o que foi encontrado. Tudo isso para produzir um documento conclusivo, em forma de relatório ou artigo científico, que deverá ser publicado e divulgado ao público especializado e leigo.


A metodologia de trabalho do paleontólogo varia de acordo com os tipos de fósseis que ele pretende estudar. Sejam somatofósseis ou icnofósseis, fósseis de plantas ou animais, vertebrados ou invertebrados, e estes últimos, microscópicos ou não. De qualquer forma, sempre é um trabalho meticuloso, pautado por critérios científicos rigorosos e bem definidos, cujo objetivo final é recuperar o máximo de informação possível.


É importante lembrar que um paleontólogo não é um arqueólogo. O arqueólogo estuda especificamente evidências culturais do passado dos seres humanos, já o paleontólogo tem uma visão mais ampla, ele estuda toda a vida extinta, incluindo fósseis de humanos, porém de um ponto de vista paleobiológico.

Outro mito que se deve desfazer é: Não é todo o paleontólogo que estuda dinossauros. Apenas uma fração o faz. E os dinossauros, apesar de grandes, não fornecem tantas respostas quanto, por exemplo, organismos microscópicos fossilizados.

Pegadas de dinossauros em Sousa, PB, Brasil.

No campo, o paleontólogo pode passar dias sob um Sol escaldante, portanto deve estar bem preparado: acompanhado do seu fiel chapéu, protetor solar, roupas e calçados confortáveis (nada de shorts! Ele precisa se proteger de insetos e cobras!), além de muita água. Situações de acampamento são comuns e muitas vezes o banho pode ser um luxo. Os equipamentos básicos incluem uma caderneta de campo, bússola ou GPS, lupas, pincel, algum tipo de martelo geológico, além de outras ferramentas de extração (ponteiras e cinzéis) e proteção (óculos, luvas, etc.). Este material, todavia, varia com a natureza do fóssil buscado. Alguns são pequenos e delicados e outros tão grandes que precisam ser retirados na base de picaretas ou mesmo britadeiras.


Paleontólogos não saem por aí procurando fósseis em qualquer lugar. Estão munidos de mapas geológicos, que os auxiliam a guiar seus esforços de coleta, e muitas vezes contam até com estudos prévios de localidades fossilíferas, portanto já vão preparados para o tipo de fóssil que querem encontrar.

Os fósseis necessariamente devem ser abrigados em um museu ou instituição de pesquisa e só podem ser extraídos com autorização. Eles são propriedades da União. Não se tratam de um bem negociável. Todos os que fazem a retirada ou os que adquirem, transportam e comercializam incorrem em crime. Qualquer fóssil enviado ao exterior pela compra ilegal está em desacordo com a lei. Cabe ao DNPM a proteção e fiscalização do patrimônio fossilífero brasileiro e, sem licença expressa deste departamento, o particular que estiver explorando depósitos de fósseis estará sujeito à prisão, como espoliador do patrimônio científico nacional.


Ufa! Acredito que algumas dúvidas tenham sido retiradas com este post. A paleontologia é uma ciência e uma profissão encantadora. Se você nos acompanha é porque deve achar também! Não deixe então de seguir as nossas aventuras pela ‘Caderneta de Campo’, onde poderá conhecer de perto a emoção de ser paleontólogo. Até lá!!

Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.