Paleontologia dos Micro: O que é MISS?

Por Maiana Kreff

Darei uma pequena e sucinta amostra sobre o tema do meu projeto de mestrado. Sou suspeita em falar, mas acho fantástico o estudo de MISS, pois através do mesmo permito-me viajar ao remoto tempo em que a vida começou, e enxergar a importância de seres tão diminutos mas ao mesmo tempo tão influentes em processos grandiosos, como a formação de rochas... está curioso ou confuso? Vamos explanar conceitos agora mesmo...

O que é MISS?!

Estruturas sedimentares primárias, ou seja, aquelas formadas durante o processo de deposição, junto com fatores físicos do meio e na presença de microbiais produzem o que hoje se é chamado de MISS – Microbially Induced Sedimentary Structure. Esse termo foi proposto pela pesquisadora alemã Nora Noffke. Ela, em seus estudos sedimentares, notou uma série de estruturas que pareciam de origem orgânica, que formavam uma esteira ou camada sobre o sedimento. Num estudo mais detalhado em laboratório, foi possível identificar essas estruturas como esteiras microbianas. Tais microbialitos produzem uma mucilagem especifica que se adere sobre o sedimento recém depositado, protegendo-o como uma capa dura mantendo sua forma original. Os principais micróbios estudados em MISS são as cianobactérias, ou algas azuis.
MISS é uma classificação e objeto de estudo relativamente novo dentro da geo-paleontologia. Estruturas microbiais antes eram observadas, mas deixadas de lado, pois pesquisadores não lhes davam significativa importância. Isso mudou até que em estudos aprofundados, notou-se que estas estruturas poderiam ser de grande influência na formação de rochas sedimentares e na preservação das mesmas e de outras estruturas deixadas por seres vivos do passado, como por exemplo, pegadas de dinossauros..
Esteiras microbianas se desenvolvem especialmente em planicies de maré, lagoas e plataforma continental. Seu crescimento se dá, segundo registro geológico e fossilífero, em períodos de transgressão – ou seja, quando o nível do mar aumenta e numa profundidade onde haja luz suficiente para atividade bacteriana fotoautotrófica.
Diferentemente dos estromatólitos, que são registros de atividades bacterianas em rochas carbonáticas, MISS ocorre em rochas siliciclásticas, ou seja, aquelas formadas a partir da fragmentação de outras rochas.
Estas estruturas preservadas são importantes para análise paleoambiental, uma vez que ajudam a manter a forma original do sedimento. Para estudo do MISS, é importante uma análise do ambiente presente (tafonomia atualistica), como dita o principio do atualismo, é necessário estudar o presente para então se entender o passado, pois as leis físicas que atuaram no passado são as mesma que atuam hoje, porém, não necessariamente com a mesma intensidade.
Registros de MISS existem desde o Proterozóico (Mais de 550 M.A.), sendo um objeto de estudo de grande potencial para o tema “Origem da Vida” e “Vida Extraterrestre”, adentrando em estudos astrobiológicos realizados pela NASA, por exemplo. Assim como para a indústria do petróleo, seu estudo é relativamente significativo, uma vez que podem ajudar a manter intactos os poros de rochas reservatório. Essa é um discussão que será melhor abordada no fim do projeto, depois de muito estudo sobre o tema.

Alinhar ao centro
Planicia de Maré moderna, com variedade de microbiota bentica. Foto: Nora Noffke

Microscopia eletrônica mostrando biofilme e mucilagem envolvendo grãos de quartzo. Foto: Nora Noffke
Origem das cianobactérias

Entender a origem das cianobactérias é extremamente importante, tendo em vista que a atmosfera primitiva, no começo da formação da Terra, era isenta de oxigênio. Com o passar do tempo, bactérias foram evoluindo e passaram a produzir oxigênio através da luz solar, como as plantas verdes. Isso é inferível através de MISS de cianobactérias encontradas, por exemplo, em rochas de 2,9 Ga do Supergrupo Pongola, no Sul da África. Contudo, ainda não é claro se esteiras microbianas encontradas há milhões e bilhões de anos são provenientes de cianobactérias ou de algum outro organismo fotoutotrófico. A resposta para isso, talvez, saberemos em estudos futuros mais detalhados...
A priori, essa é a conceituação, ao meu ponto de vista, mais enxuto sobre o tema. MISS, como já supracitado, é ainda uma novidade nas ciências geológicas. Em cima dela, espero que façamos grandes descobertas que esclareçam mais os nossos estudos sobre os processos geológicos desse gigante planeta, e quem sabe, de outros mundos desconhecidos...

Para entender melhor sobre o assunto, aconselho a ler os livros de Nora Noffke, em especial:
Geobiology: Microbial Mats in Sandy Deposits from the Archean Era to Today




Maiana Avalone

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.