Expedição à Amazônia (Agosto, 2009)


por Tito Aureliano, Marcos Dumont Júnior e Dr. Jonas Souza Filho

Foto acima: Sítio Niterói. Fotografia por Dr.Riff, 2009. 















A partir de um convênio entre as equipes de Paleontologia da Universidade Federal do Acre (UFAC), da Universidade de Brasília (UnB) e convidados realizou-se um trabalho conjunto para ampliar o conhecimento sobre a fauna macro e micropaleontológica do sítio fossilífero Niterói (10˚08’30’’S/67˚48’46,3’’O), localizado à margem direita do Rio Acre, a aproximadamente 25 km de Rio Branco.

O sítio Niterói é constituído por afloramentos que ocorrem por uma extensão de 300 m ao longo da margem direita do Rio Acre. Os seus sedimentos finos flúvio-lacustres estão atribuídos a Fm. Solimões, Bacia do Acre (Cunha, 2007). A datação para os sedimentos da Fm. Solimões baseada em macro fauna associada indica Mioceno Superior-Plioceno (Frailey 1986; Latrubesse et al. 1997, 2007). Todavia duas datações radiométricas (9.01 e 3.12 Ma) foram obtidas a partir de cinzas vulcânicas peruanas em sedimentos correlacionados com a Fm. Solimões (Campbell et al. 2001).


Em Agosto de 2009, foram realizadas as escavações, à margem do Rio Acre. O trabalho de campo durou uma semana, na temporada de baixa do rio que expôs os barrancos com os afloramentos. O material foi retirado com os devidos cuidados e enviado para o Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da UFAC, em Rio Branco. Parte deste material foi enviado para o Laboratório de Micropaleontologia da UnB. Após preparação, os fósseis foram identificados com base na coleção de referência do Museu de Paleontologia da UFAC e os resultados foram analisados e comparados com a bibliografia existente.

Foto acima: Explorando os afloramentos do Sítio Niterói.
Fotografia por Tito Aureliano, 2009.
 

Os vários fósseis encontrados estavam completamente desarticulados e muito raro não fragmentados, o que não permitiu uma taxonomia mais precisa na maioria dos casos.

Os fósseis compreendem diversos grupos de vertebrados com registros prévios para o Sítio Niterói, segundo Negri, 1998. Dois fragmentos posteriores de mandíbula (esquerda e direita) com processo retroarticular preservado, uma vértebra torácica quase completa e parte do axis, identificados como pertencentes à espécie Purussaurus brasiliensis BARBOSA RODRIGUES, 1892; fragmentos fósseis de crocodilianos não identificados, representados por vértebras, osteodermes, dentes, mandíbulas, osso carpal, rádio quase completo e fragmentos de ossos longos; restos de carapaça e plastrão de Testudines; vértebra e fragmento de crânio de Osteichthyes; astrágalo e esterno de Mylodontidae; e coprólitos ainda não investigados.

Todos os grupos encontrados já possuem registro para o Sítio Niterói, sendo achados recorrentes e provavelmente representativos da paleofauna local (Negri, 1998). 








Foto à esquerda: Pesquisadores Tito Aureliano (esquerda) e Dr. Edson Guilherme retirando a mandíbula de Purussaurus. 
Fotografia por Dr.Riff, 2009.











Foto à esquerda: Tito Aureliano retirando dentes e fragmentos de Purussaurus. 
Fotografia por Tito Aureliano, 2009. 















Foto à esquerda: Fósseis de Purussaurus levados pela selva até a segurança do laboratório de pesquisas paleontológicas da UFAC. Fotografia por Tito Aureliano, 2009.
Foto acima: Colossal vértebra dorsal de Purussaurus. 
Fotografia por Tito Aureliano & Marcos Dumont, 2010.





Imagem à direita: Recuperadas as porções articulares de Purussaurus brasilienses. Fotografia por Tito Aureliano, 2010.


Foto à esquerda: Comparação de tamanho. (Acima) Reconstrução em resina de mandíbula direita de Purussaurus brasiliensis; (Ao meio) Fragmento da extremidade posterior da mandíbula direita de Purussaurus brasiliensis; (Abaixo) Mandíbula direita de Melanosuchus niger, o jacaré-açú.. Fotografia por Tito Aureliano & Marcos Dumont, 2010.








Foto à direita: Em círculo: permineralização de Gipsita em fósseis do Sítio Niterói. Fotografia por Marcos Dumont, 2010.

Gipsita (sulfato de cálcio) é cristalizado e depositado em ambientes de alta salinidade (Press et al). A presença desse mineral nos fósseis indica um ambiente de deposição hipersalino, enquanto os táxons de vertebrados aquáticos registrados para o Sítio Niterói pertencem a grupos tipicamente encontrados em águas continentais. Crocodylia, Podocnemididae e Chelidae.

Dada a ausência de fósseis de vertebrados marinhos miocênicos, pode-se inferir que a região onde hoje está localizado o estado do Acre foi durante o final do Mioceno uma planície com lagunas hipersalinas. Pode ser observada hoje uma situação semelhante no pantanal do Mato Grosso do Sul.

A questão paleoambiental do Neo Mioceno da Fm. Solimões permanece ainda cheia de lacunas a serem respondidas. Registra-se aqui a necessidade de mais estudos micropaleontológicos para aprofundar-se o conhecimento da história ecológica e geológica da porção Ocidental da Amazônia.

Bibliografia 

Campbell Jr, K.E., Heizler, M., Frailey, C.D., Romero-Pittman, L., Prothero, D.R., 2001. Upper Cenozoic chronostratigraphy of the southwestern Amazon Basin. Geology 29, 595–598. 

Cunha, P.R. da C., 2007. A Bacia do Acre. Boletim de Geociências da Petrobras, Rio de Janeiro, v.15, n.2, p 207- 215. Mai/Nov 2007.

Frailey, C.D.,1986. Late Miocene and Holocene mammals, exclusive of the Notoungulata, of the Rio Acre region, western Amazonia. Contrib Sci 374, 1–46. 

Latrubesse, E.M., Bocquentin, J., Santos, J.C.R., Ramonel, C.G., 1997. Paleoenvironmental model for the late Cenozoic of Southwestern Amazonia: paleontology and geology. Acta Amazonica 27, 103–118.

Latrubesse, E.M., Silva, S.A.F. da, Cozzuol, M., Absy, M.L. , 2007. Late Miocene continental sedimentation in southwestern Amazonia and its regional signifi cance: biotic and geological evidence. J S Am Earth Sci 23, 61–80 

Negri, R., 1998. Anatomia craniana de Neoepiblema ambrosettianus (Ameghino, 1989). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, série Ciências da Terra 10, 1998.

Press, F., Siever, R., Grotzinger, J. & Jordan, T.H., 2008. Para Entender a Terra, capítulo 8. Editora Bookman, Porto Alegre, RS.




Tito Aureliano

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.