Diário da Ilha - Cajual MA


Por Maiana Kreff

PRIMEIRO DIA

O dia começou ensolarado, perfeito para um período de escavação. Tomamos o catamarã, na beira do córrego Boqueirão em São Luís. O sol ardia em nossas costas, com uma leve brisa batendo em nossas faces. Tão distante já se via a ponta da ilha que nos esperava, Cajual, terra perdida e isolada, paraíso cretácico.
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Eu estava extremamente ansiosa até o momento que aportamos na ilha, tivemos que fazer fila "indiana" para descarregar as malas até um lugar seco. A ilha, um paraíso natural. Só se via areia, mata de babaçu e algumas casinhas de barro feitas pelos nativos (descendentes de escravos) do local. Depois de descarregarmos tudo, fomos à primeira aula do professor Manoel Alfredo, paleontólogo da UFMA, que nos explicou o que havia ocorrido há alguns milhões de anos para a formação daquela maravilha rochosa cenomaniana, a qual soterrou diversas estruturas ósseas, dentárias e vegetais de animais e plantas já extintos.
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O tempo continuava ajudando, até que bateu a hora do almoço e fomos comer um original e delicioso - sim, delicioso. Naquele momento estávamos tão famintos, que o que viesse nos pareceria ser uma apetitosa costela bovina assada - cup noodles.
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Após o almoço fomos para mais uma aula de geologia e paleontologia, e para isso tivemos que andar em média uns 14 km (ida e volta) pelo litoral. Chegamos até a ponta leste da ilha, onde pudemos observar mais uma formação rochosa do cenomaniano, que também mostrava marcas (supostas) de Tsunami ocorrido há milhões de anos.
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Quando voltamos para nossas instalações improvisadas (barracas), já estava escurecendo, e ainda tínhamos que tomar banho. Para isso, tínhamos que adentrar a floresta, passar pelo mangue, sermos comido por murissocas - isso ainda não era nada - até chegarmos a uma poça improvisada, onde, com um balde, tomaríamos banho com água de coloração "marrom escura" naquela escuridão selvagem. Depois de "limpas", eu, Aline e Simone voltamos para o litoral, passando mais uma vez pela mesma odisseia. Sim, uma odisseia, parecia que milhões de murissocas estavam nos comendo vivos, nossas pernas ardiam e coçavam ao mesmo tempo. Palavrões de nossas bocas saiam constantemente. Até que UFA, chegamos às instalações e comemos, comemos como nunca pão, patê, água e PEDRA!
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A lua estava cheia e era a única fonte de luz que iluminava aquela ilha deserta. Artificialmente, as lanternas ajudavam-nos a passar pela mata rasteira. Ficamos horas na praia, alguns bebiam, outros se divertiam com suas câmeras fotográficas e outros namoravam sob a lua cheia e apaixonante. Até que o sono foi maior que qualquer coisa e fomos dormir - digo isso por mim, pois alguns continuaram bebendo e conversando pelo resto da noite.
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SEGUNDO DIA
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Pude acordar com a iluminação natural do sol batendo em minha barraca. O calor não deixava-nos querer dormir nem por mais 10 minutos. Levantei, peguei meu cantil de água, utilizei seu conteúdo para escovar os dentes e lavar o rosto. O pessoal também já despertava, outros continuaram a dormir. Fui até a casa de barro tomar café, lá se encontravam alguns de nós esperando pelo horário da escavação. Outros se preparavam para partir no catamarã que estava para chegar. Eu estava sem noção de tempo, perguntei a Manoel Alfredo o horário, e ainda era 8h da manhã. Teríamos que sair somente após o almoço para escavar, pois era por esse período que a maré estaria baixa, propicia para poder escavar com segurança. Ficamos sabendo de histórias de mortes já naquela ilha, pessoas que foram imprudentes e por fatalidade tiveram um final triste.
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Fiquei esperando o tempo passar, e acredite, aquilo não passa. Nesse tempo fiquei a pensar no povo nativo que ali vivia. O que faziam para se divertir? Não tinham livros, tv, nem luz elétrica. Também não tinham condições sanitárias ideais. Suas necessidades tinham que ser feitas no meio do mato, e banho era por água da chuva que se acumulava em poços artificiais. Fiquei pensando se fosse comigo, se eu conseguiria viver feliz em tais situações. Creio que seja uma vida muito difícil, mesmo que dentro de um paraíso natural, longe de congestionamentos, aglomerações humanas, poluição. Os homens eram fortes, tinham um corpo atlético sem nunca terem passado por uma academia. Sim, era um corpo obtido através de exercícios em atividades diárias de subsistência.
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Chegando a hora do almoço, o tempo começou a fechar, uma parte do pessoal já tinha voltado para São Luís. Éramos agora 12 "sobreviventes". Aquele tempo demonstrava que as condições não seriam muito boas para o trabalho árduo com martelo. O local de coleta dos fósseis seria em cima de uma formação constituída por óxido de ferro. Não poderíamos ir a lugar algum, pois os raios poderiam ser cruéis.
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Esperamos que o tempo ruim passasse. E não passava. A chuva começou, forte e com ventania. As barracas voavam. Corri para tentar salvar a minha. Foi inútil, mesmo com a ajuda de Tito de do Jefferson, os meus pertences que estavam dentro já estavam ensopa. Nada se salvou, mochila, toalha, roupas. A barraca desarmou e tive que levar minhas coisas para lugar seguro. Minha garganta já doia, as picadas coçavam, os pés inchavam. Precisei "filar" remédio do pessoal que ali se encontava. QUE AVENTURA INCRÍVEL. Eram 14h e a chuva amenizou, tentamos então nos arriscar e ir para a formação procurar por mais alguns fósseis. Ficamos no máximo 30 minutos, pude encontrar alguns dentes de peixes, placas ósseas e uma pteridófita mineralizada. Até que começou a chover novamente. Não tínhamos onde nos proteger, e voltamos para o acampamento, ensopados. A chuva parou, e aproveitamos para tomar banho com a água que escorria do telhado da casinha de barro. Alguns ainda voltaram para a formação e Laje do Coringa, bravos e guerreiros.
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O céu começava a escurecer novamente, e a chuva voltara mais forte do que nunca, como ninguém daquela ilha tinha visto há anos. Comemos, e o pessoal já começa a voltar, dizendo que os pingos da chuva foram crúeis, como facas cortando-lhes cada parte do corpo. Ficamos pensando que se soubéssemos que a chuva nos impediria de trabalhar, poderíamos ter voltado com os outros naquela manhã. Escurecia novamente e ninguém tinha onde dormir, então decidimos que todos deveriam dormir na casinha de barro, juntos para poderem se aquecer. Jogamos umas lonas pelo chão e ali nos agrupamos. Eu não conseguia dormir, alguns já se encontravam dormindo, até que os porcos começaram a tentar entrar em nosso cômodo. Eles "gritavam" como javalis, levantamos desesperados. Foi engraçado, ri e não parava mais. Mayra - estudante de biologia e paleontologia do Maranhão - também estava achando tudo muito engraçado, decidimos que não iríamos mais dormir naquela noite. Ficamos sentadas conversando com Igor, meus pés começavam a inchar novamente, alérgica pelas picadas dos malditos mosquitos. COMO EU OS ODIEI. Praguejei contra cada um que me picou. Mas me conformei, afinal, biólogo não pode reclamar de nada. Tomei um analgésico e bateu aquele sono. Voltamos a dormir. Dormi como um bebê.
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TERCEIRO DIA
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A chuva continuava pela manhã. Manoel Alfredo cogitou a hipótese de o catamarã não poder se arriscar naquelas águas agitadas e tempestivas, e termos que passar por mais uma noite na ilha. Alguns começaram a reclamar, não tinham mais roupas secas. A comida estava acabando, seria uma odisseia passar pro mais uma noite por lá. Ninguém conseguia se comunicar com o capitão do catamarã, até que no horizonte infinito daquela imensidão azul, pudemos ver uma vela se aproximar. Sim, estávamos salvos, era nosso barco que se aproximava. Arrumamos então rapidamente nossas coisas, e mesmo em baixo da chuva fomos em direção a praia para podermos deixar a ilha. Dessa vez não houve fila "indiana", cada um salvou o que pôde. Tivemos que entrar no mar em fúria para chegar ao barco. No final, todos conseguiram chegar são e salvos. Nenhum desastre havia ocorrido desta vez, fomos embora, deixando as nossas costas aquele paraíso natural e paleontológico, aquele Mundo Perdido e mágico.

Maiana Avalone

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.