Duas novas da Paleontologia: Linheraptor exquisitus e Cloudina carinata

Linheraptor exquisitus – Uma nova espécie de dinossauro raptor descoberto na China

Pesquisadores publicaram este mês na revista Zootaxa a descoberta de um novo e excepcionalmente bem preservado dinossauro raptor. Esse novo dinossauro foi descoberto numa região da China conhecida como Mongólia Interior durante uma expedição de cientistas chineses e norte-americanos pelo deserto de Gobi.

O animal tinha em torno de 2 metros de comprimento e devia chegar a 25 kg. Linheraptor pertencia à família dos dromeossaurídeos, um grupo de dinossauros carnívoros (terópodes) dos quais as aves modernas descendem. Trata-se do quinto dromeossaurídeo descrito para a Formação Djadoktha e seus estratos relacionados, como a Formação Wulusuhai, na China. Ele acrescenta ao conhecimento sobre a diversidade dos dromeossauros no Cretáceo Superior da região, que inclui em sua lista: Velociraptor mongolensis, Velociraptor osmolskae, Tsaagan mangas e Mahakala omnogovae.

As condições de preservação do fóssil são excepcionais e chamaram a atenção de cientistas do mundo todo. O animal foi preservado praticamente inteiro e todo articulado, apesar de ter entre 83 e 70 milhões de anos (Campaniano).

Linheraptor deveria ser um predador ágil e rápido, e como os outros dromeossaurídeos, possuía uma garra grande e curva em cada um de seus pés, que deveria ser utilizada para capturar e abater suas presas. Ele deveria predar pequenos animais, incluindo pequenos dinossauros ceratopsídeos (herbívoros quadrúpedes com chifres) como o Protoceratops.

Dentre as outras espécies de dromeossaurídeos, Linheraptor é proximamente relacionado com Tsaagan mangas, descrito em 2006, e difere dos demais exemplares desse grupo devido à características craniais consideradas exclusivas pelos pesquisadores que o descreveram. Professor Xing, o primeiro autor do artigo, afirma que de fato trata-se de um fóssil maravilhoso, e que sua preservação peculiar forneceu dados filogeneticamente muito relevantes para compreender a evolução dos dinossauros dromeossaurídeos, principalmente no que diz respeito a características do esqueleto pós-cranianano. A descoberta de Linheraptor o coloca, junto com seu táxon irmão, Tsaagan, como uma linhagem intermediária na evolução dos dromeossauros.

Vale conferir as imagens do fóssil:






E reconstruções do animal:


XU, X.; CHOINIERE, J. N.; PITTMAN, M.; TAN, Q.; XIAO, D.; LI, Z.; TAN, L.; CLARK, J.M.; NORELL, M.A.; HONE, D.W.E. & SULLIVAN, C., 2010. A New dromeosuarid (Dinosauria:Theropoda) from the Upper Cretaceous Wulansuhai Formation of Inner Mongolia, China. Zootaxa, 2403:1-9.


(E para não dizerem que dou privilégio aos vertebrados...)
Nova espécie de animal da fauna Ediacarana descoberto na Espanha


Ediacara é o nome de uma localidade fossilífera na Austrália (Montes Ediacara) onde foram encontrados pela primeira vez os mais antigos fósseis de metazoários (animais com células organizadas em tecidos) do mundo. Eles datam do Pré-Cambriano, cerca de 600 milhões de anos atrás. Consistem de simples impressões nas rochas de diversos tipos de criaturas, as quais algumas são consideradas como representantes primitivos de grupos modernos de animais, como os celenterados, anelídeos e artrópodes. Isto, no entanto, é controverso. Alguns cientistas argumentam que, na verdade, esses seres, a despeito de algumas semelhanças na sua forma exterior, deveriam ter operado de uma forma completamente diferente dos organismos modernos. Teriam sido um experimento inteiramente distinto em matéria de vida multicelular, que acabou fracassando e foram extintos no final do Pré-Cambriano.

Discordâncias à parte, a importância da fauna de Ediacara está no fato dela ser o único vestígio de vida multicelular anterior à linha divisória que separa Pré-Cambriano e Cambiano, um limite marcado pela grande "Explosão de Vida Cambriana", em que representantes definitivamente de grupos modernos deram as caras pela primeira vez no grande palco da vida. Em especial aqueles dotados de algum tipo de partes duras (biomineralizadas).

Por terem sido primeiramente descobertos nessa localidade australiana, esse conjunto de animais fósseis acabou sendo apelidado de "Fauna de Ediacara" ou "Fauna ediacarana", porém não são exclusivos dessa região. Eles têm sido encontrados em cerca de outras 30 localidades em todo o Planeta, incluindo o Brasil, na região de Corumbá, Estado de Mato Grosso do Sul.

Alguns componentes mais conhecidos dessa fauna incluem Cyclomedusa radiata, Parvacorina minchami, Sprigina floudersi e Dicksonia costata.

Toda essa introdução foi necessária para que pudéssemos revelar a mais recente descoberta sobre a Fauna de Ediacara:

Nessa última semana, pesquisadores espanhóis publicaram na revista Precambrian Research, uma nova espécie de animal da fauna ediacarana: Cloudina carinata.

O gênero já era conhecido desde a década de 80, também da Espanha, apesar de ter sido reconhecido também em outras partes do mundo. Trata-se de pequenas criaturas de aparência tubular, que teriam sido os primeiros seres a desenvolver algum tipo de exoesqueleto entre 550 e 543 milhões de anos atrás.

Os paleontólogos da Universidade de Extremadura descreveram a nova espécie com base em fósseis que preservaram inclusive a forma tridimensional dos animais, que foi o que chamou a atenção de estudiosos da área. Os autores do novo paper explicam que Cloudina carinata é caracterizada por uma elaborada ornamentação e um complexo arcabouço de partes biomineralizadas em forma de funil inseridas umas nas outras formando uma espécie de tubo. Iván Cortijo, o autor principal, assinala que o fóssil exibe algumas evidências que suportariam a interpretação de algum tipo de reprodução assexuada, até agora só descrita em exemplares chineses, mas que se trataria de um dos mais antigos exemplos de reprodução em animais de todo o registro fóssil.


A descoberta de Cloudina carinata é importante para a compreensão de como se deu a evolução inicial dos animais. Sua importância para o entendimento quanto à origem do exoesqueleto é indiscutível. Apesar de sua relação com outros grupos de animais ainda ser incerta, Cloudina tem sido comparada com aos Cnidaria (hidras, medusas, anêmonas, etc.) e aos Annelida (minhocas, sangue-sugas e poliquetos).

De acordo com o grupo de pesquisa que descreveu Cloudina carinata, o estudo de fósseis do período Ediacarano (entre 630 e 540 milhões de anos atrás) e de fósseis do início do Cambiano (540 milhões de anos atrás) revelam os caminhos tomados pela evolução num momento crucial da história da vida no planeta, quando os primeiros animais multicelulares apareceram, assim sendo, são peças chave para entender como a radiação evolutiva dos animais atingiu seu ápice na então chamada "Grande Explosão Cambriana" ou "Evolução Big Bang".

CORTIJO, I.; MUS, M.M.; JENSEN, S. & PALACIOS, T., 2010. A new species of Cloudina from the terminal Ediacaran of Spain. Precambrian Research, 176(1-4):1-10.

Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.