Os "Lagartos-símios" do Triássico

Simiosauria!

Os répteis definitivamente foram muito criativos durante a Era Mesozóica (250 – 65 milhões de anos atrás) e não é a toa que esse período da história do planeta Terra ficou conhecido como a “Era dos Répteis”.

Dito isso, posso apostar que a primeira imagem mental que a maioria dos leitores resgatou foi: dinossauros! ... Ok! Era de se esperar, sem problemas. NO ENTANTO, pensei em escrever este artigo justamente em defesa das minorias (nem sempre minorias!) injustiçadas.

Não deveríamos associar esse título unicamente à carismática presença dinossauriana! Na realidade, vários outros ramos da fantástica árvore reptiliana também merecem tanta admiração quanto os dinossauros... e pensando nisso é que pretendo explorar essas outras experiências evolutivas dos répteis com vocês.

Hoje, por exemplo, venho aqui contar um pouco sobre a história de um pequeno (esse sim é minoria) e estranho grupo de répteis triássicos muito bem adaptados ao estilo de vida arborícola. Bizarros seria o adjetivo mais apropriado, talvez, mas vamos ao que interessa. Conheçam um pouco dos Simiosauria ou lagartos-macaco:





No período Triássico (250 - 210 milhões de anos atrás) os répteis explodiram em diversidade de formas e estilos de vida. Chegaram a preencher praticamente cada canto do globo terrestre. Répteis herbívoros de todos os tamanhos pastavam pelas pradarias cobertas de samambaias ou pelos bosques densos, enquanto outros, carnívoros, os perseguiam. Haviam também répteis aquáticos, alguns que se aventuravam em rios e lagos, outros que se alimentavam de crustáceos e moluscos no fundo do mar ou perseguindo peixes em mar aberto. Foi nesse período ainda que os répteis conquistaram os céus (Pterossauros!) e foi durante alguns poucos milhões de anos antes do fim desse tal período Triássico, que o estranho grupo de répteis que venho apresentar... floresceu.


Esses bichinhos podiam ser encontrados escalando árvores com destreza e seguindo seu caminho em direção ao topo das florestas. Tratava-se de um grupo tão bem adaptado ao estilo de vida arborícola, que acabaram sendo chamados de Simiosauria (uma referência aos macacos, símios).

O simiossáurio mais conhecido (se você levar em consideração quão poucas referências existem sobre esses animais na literatura) é Megalancosaurus preonensis, e ele pode muito bem nos servir de modelo para ilustrar claramente algumas das peculiares características desses bichos  e suas adaptações ao estilo de vida nas árvores.




Megalancosarus preonensis.

1) Sobre o pescoço extraordinariamente flexível de Megalancosaurus está encaixada uma cabeça muito semelhante a das aves. Tal semelhança com crânio das aves modernas chegou inclusive a causar algumas confusões. Alguns pesquisadores chegaram a sugerir que, por isso, eles poderiam ser felizes candidatos a ancestrais das aves! Mas não. Acalmem-se. É mais plausível, que realmente não passe de uma convergência evolutiva. As aves modernas tem sua origem bem enraizada e bem documentada dentro do grupo dos dinossauros terópodes.


À direita um espécime de Megalancosaurus e à esquera esquema detalhando o crânio desse animal.

2) Megalancosaurus também apresentava uma pequena ‘corcova’ sobre os seus ombros, que deve ter servido de suporte para músculos que o auxiliavam na execução de um bote rápido e preciso na captura de insetos e outras pequenas presas.

3) Além disso, dois de seus dedos das mãos eram opositores, o que lhes permitia se agarrarem facilmente aos galhos.

4) Alguns espécimes demonstram inclusive a presença de um dedo opositor nos pés, no estilo primata, já outros parecem não apresentar esta característica, o que poderia sugerir algum grau de dimorfismo entre machos e fêmeas.

5) Por fim: A cauda era longa e preênsil e o mais interessante: ela terminava em uma garra afiada (!), que deve ter sido utilizada para manter esses animais firmemente agarrados aos galhos.

Detalhe da garra na ponta da cauda de um Megalancosaurus.

Contemporâneo à Megalancosaurus, passamos a um membro um pouco mais robusto do grupo, Drepanosaurus unguicaudatus. Enquanto Megalancosaurus atingia cerca de 25 cm, Drepanosaurus chegava à medir quase meio metro. Esse gênero é conhecido por um único esqueleto, infelizmente sem cabeça. Mas é possível observar que Drepanosaurus também apresenta a ‘corcova’ sobre os ombros e a característica garra em sua cauda preênsil. Provavelmente também deveria ter o crânio semelhante à de uma ave, com o seu ‘bico’ rodeado de pequenos dentes em formato de agulha, como o primo menor, Megalancosaurus.

Drepanosaurus unguicaudatus

A característica mais interessante de Drepanosaurus, no entanto, é o seu membro anterior. Diferente do grácil membro de Megalancosaurus, Drepanosaurus possuía braços robustos e uma garra gigante em forma de lâmina em seu segundo dedo. A garra era maior, inclusive, que o resto de sua mão. Se você observar de perto o esqueleto, parece existir um osso extra formando o cotovelo do animal. Na verdade trata-se da ulna modificada. Uma alteração drástica relacionada à presença da massiva garra. Deveria servir como um ponto de apoio para os músculos necessários no controle de tal ferramenta. Ele deveria utilizá-la de forma análoga aos modernos tamanduás-pigmeus na busca de insetos.


Drepanosaurus foi o primeiro Simiosauria a ser descrito, e por essa razão o grupo freqüentemente é referido como Drepanosauria ou drepanossaurídeos. O termo “Simiosauria” foi cunhado por Phil Sentor em 2004, que reservou o termo drepanossauros somente para os três membros mais relacionados do grupo (Drepanosaurus, Megalancosaurus e Dolabrosaurus).

Drepanosaurus e Megalancosaurus são conhecidos do norte da Itália, que durante o Triássico era uma costa tropical. Os sedimentos finos da região preservaram vários répteis não-usuais, incluindo 3 tipos diferentes de lagartos-símios: os dois mencionados acima e um parente menor, de 15 cm, ainda não oficialmente descrito.

Reconstrução de um Simiosauria. Tão estranhos, pareciam mais uma combinação de corpo de camaleão + cabeça de ave...

Do outro lado do oceano Atlântico – que na época era somente um vasto vale– encontramos alguns outros simiossáurios um pouco diferentes dos da região italiana. Os fósseis são encontrados na região que hoje corresponde aos E.U.A, na área de Nova Jersey e na Formação Chinle no Novo México.

Em sedimentos da região de Nova Jersey, dezenas de espécimes de Hypuronector limnaios foram encontrados. Hypuronector era muito similar aos simiossáurios italianos em alguns aspectos do esqueleto, mas numa primeira vista deveriam parecer seres bem diferentes. Hypuronector era pequeno (12 cm) e diferentemente dos outros simiossauros que apresentamos até agora, tinha uma cauda não preênsil, mas sim ampla e achatada como uma nadadeira. Alguns pesquisadores propuseram, inclusive, que Hypuronector deveria ser um animal aquático, baseados na forma de sua cauda e no fato de os sedimentos a que estavam associados serem representativos do fundo de um paleolago.

Hypuronector limnaios

Porém, devo colocar aqui, que todos os simiossáurios tinham caudas achadadas em certo grau e todos foram encontrados em sedimentos associados à ambientes lacustres. Historicamente cientistas já propuseram - em um momento ou outro -, que todos os drepanossauros pudessem ter tido hábitos aquáticos, no entanto, hoje estão de acordo que se tratava realmente de um grupo primariamente arborícola. Hypuronector deve estar sendo mal interpretado, infelizmente, e deveria ser um escalador arborícola como os seus primos italianos.
Apesar de vários espécimes terem sido recuperados, nenhum apresenta o crânio preservado ou os membros em detalhes. Estas peças da anatomia seriam fundamentais para uma evidência mais conclusiva sobre o hábito de vida dessas criaturas.

Finalmente o último membro desses estranhos répteis foi revelado no Novo Mexico, na Formação Chinle. Trata-se de Dolabrosaurus aquatilis, de longe o simiossauro menos conhecido.

Dolabrosaurus parece ser muito similar à Megalancosaurus, apenas um pouco maior e com uma cauda mais ampla, ou achatada lateralmente. Como parte de seu nome sugere, uma vez já foi classificado como um animal aquático. A outra parte do seu nome faz referência à um processo não-usual em forma de machado no topo de suas vértebras.

Sem muito mais o que falar sobre esse exótico grupo, deixo aos leitores algumas referências para os quiserem se aprofundar no assunto. Uma delas é a página do Prof. Silvo Renesto, http://dipbsf.uninsubria.it/paleo/research.htm .

REFERÊNCIAS

BERMAN, D. & REISZ, R. R. 1992. "Dolabrosaurus aquatilis, a Small Lepidosauromorph Reptile from the Upper Triassic Chinle Formation of North-Central New Mexico." Journal of Paleontology 66(6): 1001-1009.

COLBERT, E. H. & OLSEN, P. E., 2001. "A New and Unusual Aquatic Reptile from the Lockatong Formation of New Jersey (Late Triassic, Newark Supergroup)." American Museum Novitates 3324: 1-24.

HARRIS, J. D. & DOWNS, A., 2002. "A Drepanosaurid Pectoral Girdle from the Ghost Ranch (Whitaker) Coelophysis Quarry (Chinle Group, Rock Point Formation, Rhaetian), New Mexico." Journal of Vertebrate Paleontology 22 (1): 70-75.

PINNA,G. 1986. "On Drepanosaurus unguicaudatus, an Upper Triassic Lepidosaurian from the Italian Alps." Journal of Paleontology 60 (5): 1127-1132.

RENESTO, S. 1994a. "The Shoulder Girdle and Anterior Limb of Drepanosaurus unguicaudatus (Reptilia, Neodiapsida) from the Upper Triassic (Norian) of Northern Italy." Zoological Journal of the Linnean Society 111: 247-264.

RENESTO, S., 1994b. "Megalancosaurus, a Possibly Arboreal Archosauromorph (Reptilia) from the Upper Triassic of Northern Italy." Journal of Vertebrate Paleontology 14 (1): 38-52.

RENESTO, S. & FRASER, N. C. 2003. "Drepanosaurid (Reptilia: Diapsida) Remains from a Late Triassic Fissure Infilling at Cromhall Quarry (Avon: Great Britain)." Journal of Vertebrate Paleontology 23 (3): 703-705.

SENTER, P., 2004. "Phylogeny of Drepanosauridae." Journal of Systematic Palaeontology 2 (3): 257-268.




Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.