DINOS ANFÍBIOS

A VIDA SEMI-AQUÁTICA DOS ESPINOSSAUROS

Ilustração de Marc Simonetti

Romain Amiot da Universidade de Lyon, França, e colegas publicaram neste último mês, na revista Geology, um artigo revelador sobre o hábitos de vida dos espinossaurídeos, um grupo peculiar de grandes dinossauros carnívoros, que viveram durante o fim do Jurássico e o início Cretáceo (entre 150 e 90 m.a. atrás) da América do Sul, África, Europa e Ásia. Com base em análises de variação isotópicas de oxigênio-18, realizadas com o esmalte dentário destes animais, os pesquisadores puderam afirmar que os espinossauros possuiam hábitos semi-aquáticos. Estes passariam grande parte do seu tempo dentro d’água, algo como os crocodilos e hipopótamos modernos.

Dos Espinossaurídeos...
(Se está com pouco tempo ou careca de saber o que são espinossauros pule esta parte e siga para: Espinossauros Anfíbios! logo abaixo)

Os espinossauros eram dinossauros carnívoros (terópodes) de grande porte com especializações bastante peculiares, incluindo dentes cônicos e mandíbulas alongadas como crocodilos. Alguns deles possuíam inclusive um alongamento extraordinário das cristas neurais de suas vértebras dorsais, o que deveria configurar-se em algo parecido com uma vela em suas costas. Uma característica um tanto bizarra entre dinossauros terópodes, e cuja função ainda gera discussões.
A biologia desses bichos já foi muito discutida e suas características morfológicas – a mandíbula alongada e os dentes cônicos - já levaram cientistas a assinalarem hábitos alimentares piscívoros para esses animais, assim como restos estomacais preservados com escamas de peixe parcialmente digeridas também vieram a corroborar a afirmativa.
Mesmo que uma dieta piscívora viesse a sugerir hábitos de vida aquáticos ou semi-aquáticos, o esqueleto pós-craniano desses animais aparentemente não possui evidentes adaptações para este estilo de vida (membros modificados para propulsão aquática, caudas flexíveis e propulsoras, etc). Alguns pesquisadores argumentam, inclusive, que a presença de uma vela dorsal poderia vir a ser um empecilho diminuindo a eficiência desses animais neste tipo de ambiente.


Os espinossaurídeos são divididos em 2 subfamílias, sendo 7 gêneros (Barionyx, Cristatusaurus, Suchomimus, Suchosaurus, Angaturama, Irritator e Spinosaurus) com 8 ou 9 espécies. Todos os exemplares são incompletos, por isso sua anatomia ainda não é totalmente conhecida. O exemplar mais completo seria de Suchomimus tenerensis, porém argumenta-se que o seu material seria referente a 3 indivíduos distintos e provavelmente algumas das peças poderiam pertencer a terópodes não-espinossaurídeos. Uma quimera.
 A maior diversidade desses animais é concentrada na África (3 gêneros, 4 espécies). Os registros na América do Sul são de duas das espécies brasileiras, Angaturama limai e Irritator challengeri, provenientes do Membro Romualdo, Formação Santana, Bacia do Araripe, nordeste do Brasil.

[ P.S. sobre os espinossaurídeos brasileiros: Aventou-se a hipótese de que o material utilizado para descrição destas duas espécies pertencesse ao mesmo indivíduo, por isso representariam uma mesma espécie. Tratam-se de partes distintas do crânio, por isso a possibilidade de comparação é limitada. Algumas características, no entanto, indicariam que o material não deveria pertencer a um único animal e até que outros exemplares mais completos sejam encontrados a discussão continuará suspensa.]

Sugere-se que os espinossaurídeos tenham migrado da Europa para a África, onde se diversificaram e de onde posteriormente teriam se espalhado para a América do Sul. Os registros mais antigos são de depósitos na Ásia, porém a presença destes dinossauros neste continente ainda necessita ser confirmada. Seria muito importante do ponto de vista paleobiogeográfico, uma vez que colocaria a origem desse grupo no continente asiático.

Espinossauros anfíbios!
A questão sobre o hábito de vida dos espinossaurídeos sempre esteve suspensa. Especulava-se sobre uma forte interação aquática, devido aos dados que corroboravam uma dieta piscívora. Porém a ausência de caracteres em seu pós-crânio que evidenciassem um modo de vida aquático levava a crer que eles fossem ao menos preferencialmente terrestres, também por existirem registros de que esses animais predassem pterossauros e outros dinossauros, não apenas peixes.
Essa questão levou Amiot e seus colegas a encontrarem um meio de testar a hipótese do modo de vida aquático para esses animais. Eles procuraram isótopos de oxigênio aprisionados no esmalte dos dentes de espinossauros e compararam com valores daqueles encontrados em dentes de crocodilos e de outros dinossauros e também em fragmentos de carapaça de tartarugas do mesmo período. Ok, mas o que isso significa?
A idéia é:
1) animais que passam muito tempo em ambientes secos perdem água na respiração e na evaporação pela pele, evitando urinar em excesso. Já animais aquáticos, por estarem submersos, ingerem água constantemente e tem menos problemas com a perda desta, por isso também urinam com mais freqüência.
2) A molécula de água possui um átomo de oxigênio em sua composição. Este átomo pode pertencer a dois tipos de isótopos de oxigênio: o oxigênio-16, mais leve, ou o oxigênio-18, mais pesado. O oxigênio-16, por ser mais leve, é facilmente eliminado junto com o vapor de água perdido na respiração ou pela transpiração, já o oxigênio-18 não, podendo ser eliminado somente pela urina.
1+2 = Em animais terrestres o oxigênio-16 perde-se facilmente na respiração e transpiração, enquanto o oxigênio-18 torna-se mais concentrado nos tecidos e no momento da formação do esmalte dos dentes isso fica – de forma muito apropriada - evidenciado. Em contraposição, animais aquáticos perdem menos água em forma de vapor do que os animais terrestres, e urinam com freqüência, portanto, o oxigênio-18 apresenta-se numa concentração relativamente menor nos seus tecidos.
Assim sendo: Se os espinossauros fossem aquáticos, a concentração de oxigênio-18 nos seus tecidos seria mais baixa do que de dinossauros conhecidamente terrestres e assemelhar-se-ia bastante com a de animais aquáticos como os crocodilos e tartarugas.
Para testar isso a equipe utilizou dados de variação de isótopos de 133 espécimes (dentes e fragmentos de carapaça) de espinossauros, outros dinos, crocodilos e tartarugas de diferentes continentes.
Seus resultados demonstram que os espinossaurídeos apresentam valores de oxigênio-18 menores do que os encontrados em dinossauros conhecidamente terrestres (uma diferença estatisticamente significativa) e que seus valores não diferiram significativamente daqueles dos crocodilos. A equipe argumenta que isso indicaria que os espinossauros seriam realmente animais predominantemente aquáticos.
Uma objeção potencial seria que talvez uma dieta composta principalmente de animais aquáticos, como peixes, levaria a ingestão de alimento inerentemente pobre em oxigênio-18 e isso refletiria nos tecidos do espinossauro. Porém Amiot argumenta que mesmo que os espinossauros se alimentassem exclusivamente de peixes e fossem animais essencialmente terrestres, eles evaporariam a água dos peixes ingeridos e terminariam com uma assinatura isotópica terrestre típica.
Para material tão antigo trata-se ainda de um método controverso e a análise é muito sutil. Análises semelhantes com material de mamíferos do holoceno-pleistoceno tem se mostrado bem-sucedidas, mas o material é muito mais recente. O resultado repetido com numerosos espécimes de espinossauros de diferentes localidades forneceu maior confiabilidade aos resultados obtidos por Amiot, que pode muito bem estar certo.
O fato do esqueleto desses bichos não ter o visual aquático típico é o que continua a incomodar alguns pesquisadores e isso realmente é difícil de ignorar. Se eles viviam preferencialmente na água é de se surpreender que não tenham desenvolvido membros modificados para propulsão aquática ou caudas flexíveis e propulsoras observadas tipicamente em animais aquáticos. Essa pergunta não pode ser respondida ainda.
Amiot mostra-se disposto a investigar em que momento os espinossauros começaram suas vidas aquáticas e espera ter uma compreensão melhor sobre as forças evolutivas que os levaram por esse caminho. Ele sugere que esse hábito os tenha ajudado a coexistir com outros grandes dinossauros carnívoros da mesma época, tratar-se-ia da velha história da segregação de nichos. Tudo pela sobrevivência.

REFERÊNCIAS


AMIOT, R. et al. 2010. Oxygen isotope evidence for semi-aquatic habits among spinosaurid theropods. Geology, 38(2): 139-142.

CHARIG, A.J. & MILNER, A.C., 1997. Baryonix walkeri, a fish-eating dinosaur from the Wealden of Surrey. Bulletin of the Natural History Museum, Geology Series, 53(1): 11-70.

MACHADO & KELLNER, 2005. Notas sobre Spinosauridade (Theropoda, Dinosauria). Anuário do Instituto de Geociências, 28(1): 158-173.


KELLNER, A.W.A. & CAMPOS, D.A.,1996. First Early Cretaceous theropod dinosaur from Brazil with comments on Spinosauridae. Neues Jahrbuch für Geologie und Paläeontologie, abhandlungen Stuttgart, 199: 151-166.

SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL  março de 2009.

SERENO, P.C., 1998. A long snouted predatory dinosaur from Africa and the evolution of spinosaurids. Science, 282(1): 298-302.

SUES, H.D. et al., 2002. Irritator challengeri, a spinosaurid (Dinosauria:Theropoda) from the Lower Cretaceous of Brazil. Journal of Vertebrate Paleontology, 22(3): 535-547.

Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.