A cobra devoradora de dinossauros

Sanajeh indicus


A natureza fragmentada e tantas vezes difícil de interpretar dos registros fósseis nos oferece vislumbres limitados de como era a vida em tempos antigos. Freqüentemente, detalhes do comportamento e interações entre as espécies ficam em aberto e as interpretações são especulativas. No entanto, ocasionalmente, uma repentina catástrofe pode capturar os animais de surpresa, preservando-os em momentos de atividade. Um prato cheio para os paleontólogos.


O momento do ataque ficou 'congelado' para sempre

Escultura/reconstrução de Tyler Keillor


Um trabalho publicado na revista PLoS Biology no início desde mês, por Jeffrey Wilson e colaboradores, descreveu os vestígios de uma espécie de cobra do período Cretáceo, que acabou 'capturada' durante um ataque à um ninho de saurópodes (dinossauros herbívoros de pescoço longo). Batizada de Sanajeh indicus, o desafortunado animal acabou morrendo durante uma repentina catástrofe e ficou preservado, quase intacto, entrelaçado para sempre entre os ovos e um pequeno saurópode recém-nascido.


Alguns dos fósseis mais reconhecidos são aqueles que, de maneira fortuita, relevam algum tipo de interação interespecífica. Por exemplo, o mais famoso talvez seja o que representa dois dinossauros, um Velociraptor e um Protoceratops, aprisionados para sempre num combate mortal, ou ainda o fóssil de Repenomamus, um mamífero cretácico preservado com restos de um bebê dinossauro (Psittacosaurus) em seu estômago.


Agora se soma a lista o fóssil de Sanajeh indicus. Esse fantástico registro de uma cobra de quase 3,5m de comprimento, preservada em pleno ato de ataque a um ninho de dinossauros.


O fóssil foi encontrado na Formação Lameta, leste da Índia, reconhecida como fonte de ninhos e ovos de dinossauros incrivelmente bem preservados. A Formação Lameta continua a revelar fósseis fascinantes, que têm fornecido discernimento sobre todo tipo de interações (inter ou intraespecíficas) que se estabeleciam nessas áreas de nidificação.


Como é possível observar no fóssil, a cobra foi preservada ainda enrodilhada em um ovo esmagado de titanossauro, ao lado de um recém-nascido e dois ovos não eclodidos. Mas não é só isso que é tão fascinante.



Tudo fica muito melhor:

O mesmo sítio rendeu múltiplos exemplos dessas mesmas cobras espreitando os ninhos de saurópodes, indicando que essa era uma interação comum, e que as cobras se impunham como um risco significante a prole desses animais.


Além disso, esse fabuloso vislumbre de uma pequena parte de uma complexa teia alimentar cretácica forneceu implicações intrigantes para o nosso entendimento sobre a filogenia e evolução das cobras.


Cobras modernas são notórias pela sua capacidade, às vezes chocante, de engolir refeições desproporcionais ao tamanho de sua cabeça/corpo. Acredita-se que cobras com essas habilidades, referidas como macrostomatas, são derivadas de formas mais basais que teriam uma capacidade mandibular mais restrita.


Como é típico de muitas filogenias, no entanto, há muita controvérsia sobre os caminhos evolutivos tomados pelas cobras. Especialmente com relação à transição da capacidade de flexão mandibular de "restrita" para "ampla". Wilson e colaboradores mostram que Sanajeh era de fato uma espécie relacionada com as macrostomatas modernas, porém de flexibilidade mandibular mais restrita. Mais que isso: somada à dois gêneros australianos, era "filogeneticamente intermediária entre aniloídes e as macrostomatas, as típicas espécies de 'boca ampla' ". Os autores sugerem, que espécies basais compensariam sua pouca flexibilidade mandibular com um tamanho corporal maior, que permitiria que consumissem presas grandes (como ovos ou bebês dinossauros) sem necessidade de desarticular suas mandíbulas como fazem as cobras atuais. Parece que elas deveriam ter sim algum grau de cinese mandibular, mas nada comparável com a capacidade de desarticulação mandibular das cobras modernas, que nos impressiona tanto nos dias de hoje.



A configuração cranial de Sanajeh a coloca como um taxon irmão de duas cobras cenozóicas da Austrália, Wonambi e Yurlunggu e também ajuda a separar grupos de várias outras espécies de grandes cobras fósseis da América do Sul, África e Madagascar, que antes eram agrupadas com os gêneros australianos devido à similaridades estruturais de suas vértebras. Wilson e colaboradores designaram dois gêneros sulamericanos, Dinilysia e Najash, como basais não relacionadas aos gêneros australianos.


Devido ao fato do pequeno dinossauro encontrado junto à cobra ser muito jovem, não foi possível identificar a que espécie de saurópode ele pertencia. Porém, o contexto da formação sugere que se tratasse de um saurópode titanossauriforme (gigantes herbívoros de pescoço longo que poderiam atingir mais de 20 metros de comprimento).


Para evitar a predação, acredita-se que saurópodes provavelmente experimentavam um vigoroso crescimento nos seus primeiros anos de vida. É possível que, ao completar um ano de idade, esses animais já teriam o tamanho de Sanajeh, ou mais, e estariam fora de seu alcance.


O fóssil foi encontrado em 1984 e, por um engano, interpretado como contendo somente um saurópode recém-nascido. A peça toda foi separada em blocos antes de finalmente ser remontada em 2004 e enviada à Universidade de Michigan para estudos.


As implicações dessa publicação têm um amplo alcance dentro de múltiplas áreas de estudo e sem dúvida ela merece contemplação, discussão e um lugar na coleção de artigos.



REFERÊNCIA

WILSON, J.A.; MOHABEY, D.M.; PETERS, S.E. & HEAD, J.J., 2010. Predation upon hatchling dinosaurs by a new snake from the Late Cretaceous of India. PLoS Biology, 8 (3) : 10.1371/journal.pbio.1000322

Aline Ghilardi

Author & Editor

Professora, Doutora e apaixonada por Paleontologia, me dedico, além das pesquisas, à divulgar ciência para o público geral.